quarta-feira, 29 de julho de 2009

se...-parte 3

Com muita coragem, aproximei-me, e esta, sem qualquer reacção, continuou o seu choro tristíssimo e abafado.
Somente lhe consegui dizer :
- Calma! Tudo correrá bem! – numa rapidez maior que a luz, esta olhou para mim e se agarrou ás minhas longas e finas pernas.
Toquei-lhe, de início apenas de leve, mas, vendo-a daquela maneira, rapidamente também eu me sentei no chão a seu lado, e assim permanecemos bastante tempo. Eu, encostada a uma árvore, e ela, ao meu colo.
Quando conseguiu parar de chorar, sem ter tempo para pensar, adormeceu nos meus braços.
Eu, quando reparei que o choro passara, olhei para o seu rosto, aí vi que ela sonhava, que não estava no mesmo mundo que eu, que estava feliz.
O seu rosto fino e elegante tentava aquecer-se junto ao meu corpo, os seus lábios rubros estavam agora a mostrar um belo sorriso, algo receoso, mas feliz.
Não tive coragem para deixar tal ser tão belo, e pelos vistos tão sofredor, naquele local, podendo-lhe acontecer algo. Peguei-lhe e levei-a para o meu carro. Este estava quente fofo. Quando a larguei para a pousar no banco traseiro esta agarrou-se rapidamente ao meu pescoço como que tendo receio de eu a deixar e disse:
- por favor mamã, não vás!!!- a sua expressão deixou de ser bela para se tornar horrorizada e medrosa.
Rapidamente tive a reacção de lhe dizer que eu ( mãe) estava com ela, que nunca a deixaria.
Após ouvir estas palavras, ela soltou-se e assim prosseguimos para minha casa.
Quando lá cheguei, esta ainda estava num sono profundo. Peguei-lhe novamente e assim a levei para o meu apartamento.
Abri a porta, a menina estremeceu com um simples som de uma fechadura. Deitei-a sob os lençóis frios da minha cama desfeita e tapei-a com a manta que já há muito me acompanhava.
Após faze-lo, olhei-a e novamente me vi nela.
Aquele momento já me tinha acontecido anteriormente, eu, depois de sair do jardim, tapada com a mesma manta que fora feita pela minha mãe quando eu ainda era apenas um bebé mas que desde sempre me acompanhou, aquecendo-me nas noites frias de Inverno. Agora, esta aquecia-a, aquela que eu encontrara no jardim, no mesmo sitio, a fazer a mesma coisa que eu fizera á muitos anos atrás, a aquecer-se com a mesma manta.
Um grande número de semelhanças, nas quais eu no momento reparei, mas sem dar uma grande importância.
Enquanto a menina dormia, eu decidi ir para a sala de estar ver um pouco de televisão.
Adormeci, não sei quando, mas o cansaço acumulado acompanhado de um remoinho de emoções existentes em mim num tão curto espaço de tempo deixaram-me exausta, levando-me a um sono contrariado, mas bastante necessário.
Quando acordei, já o calor que vinha do lado exterior das janelas desaparecera e a escuridão reinava naquele pequeno apartamento.
Mal abri os olhos, dei um salto e fui ao quarto, pé ante pé, ver se a menina ainda dormia. Sim, ainda estava num sono pesado, provavelmente repleto de sonhos cor de rosa com princesas e animais encantados.
Tantas saudades tinha eu desses sonhos, dessas noites descansadas, felizes, em que não tinha de me preocupar em recordar as memórias, pois nessa altura ainda não eram necessárias.
Vendo que a menina ainda se encontrava num sono feliz e descansado, voltei para o meu sofá e retomei o sono interrompido.

se... parte 2

Mal a menina deu pela minha presença afundou ainda mais a sua cara entre os joelhos e assim permaneceu durante um bom bocado.
Tudo aquilo estava a ser bastante estranho para mim.
Há alguns anos atrás, quando soube que estava órfã e sozinha no mundo, também eu corri para aquele jardim, também eu chorei junto aquele arbusto.
Só quando vi a menina ali é que as memórias daquele momento sobressaltaram no meu peito.
Era um dia chuvoso, eu estava em casa com uma vizinha, e tudo permanecia calmo e feliz até a senhora ir ao telefone que tocara e chegar ao pé de mim com as lágrimas nos olhos e uma expressão tensa, triste e quase horrorizada.
Rapidamente a minha astúcia me levou a desconfiar de que algo se tinha passado com os meus pais. Maria, a vizinha, reparando na rapidez dos meus pensamentos, sentou-me no seu colo frio e firme, mas com um toque doce, e as únicas palavras que conseguiu pronunciar foram que os meus pais tinham tido um acidente muito grave e que agora eram meus anjoso da guarda. Sem conseguir assimilar todas as curtas palavras que da boca dela tinham saído, saltei do seu colo e numa corrida saí de casa e fui para o local que eu mais gostava, o jardim.
Passados cinco minutos a correr por entre as casas que pareciam desabar ao meu lado, em que a chuva aparentava ser como agulhas ao tocar-me no corpo, em que o meu coração parecia querer rebentar a cada momento e a minha respiração de tal forma acelarada aparentava querer sufocar-me eu tive de parar. Encostada a uma arvore que se encontrava a meio do caminho para o jardim, local para onde eu queria ir, eu pensei sem conseguir pensar, eu vi sem conseguir ver, e tudo se tornou tão confuso, tão diferente, que, rapidamente retomei a corrida chegando ao jardim em menos de dois minutos.
Quando lá entrei parecia que tinha retomado a minha vida normal, a chuva tinha desaparecido, o sol brilhava no céu e um arco-íris decorava o azul simples.
Naquele momento, todas as memórias que tinham aquele jardim como fundo passaram á minha frente, como um filme, chegando a deixar-me um pouco tonta.
Terminei a visualização desse filme com um sorriso nos lábios, um sorriso igual aos que tinha sempre que ali ia, eu e os meus pais.
Rapidamente voltei á realidade, e aí, o sorriso desmoronou-se em lágrimas, e o sol tornou-se numa tempestade na minha cabeça.
Encostei-me a um arbusto e, sentada naquela terra húmida que em determinados locais formava poças de água, onde, em tempos, eu pisaria, salpicando todos os que me rodeavam, eu chorei, chorei, chorei, um tempo sem fim, parecendo terem passado dias e noites a fio.
Por trás da árvore ouvira o som de um respirar profundo e preocupado, quase petrificado ao ver-me, e aí, a minha única reacção foi esconder ainda mais o rosto, de forma a que ninguém me visse.
Ao ver esta menina, relembrei esse momento doloroso da minha vida, aquele que me tirara quase tudo o que de bom possuía.

domingo, 26 de julho de 2009

se... - parte 1

Era um dia normal, como todos os outros que me assombravam há já bastantes meses, e eu, permanecia impávida e serena, naquele jardim que dantes tinha sido de longas gargalhadas e brincadeiras, mas que agora somente servia como que um local pensativo, com um aspecto verdejante, aonde me distanciava do mundo cinzento que estava do lado de for, pronto para me penetrar nos ouvidos, me cegar a visão e me imobilizar os músculos mal me cruzasse com ele, naquele momento h.
Depois de um dia de trabalho intenso em que as cirurgias foram tantas que passado algum tempo os meus dedos já se moviam sem serem mandados, somente com o intuito de terminar aquela cirurgia e começar novamente outra, como se estivesse num ciclo vicioso, num local em que a única li existente é não parar de trabalhar, de cortar, analisar, ver, tirar, cozer.
É realmente um ciclo vicioso quando não existem coisas novas, casos diferentes, excitantes, que nos conseguem deixar acordados dias a fio, somente para o puderes visualizar, operar.
Passado esse dia de cirurgia intensa, tudo o que não queria era ir para aquele apartamento ao qual chamava lar, abandonado no meio de tantas casas iguais, sem qualquer cor ou vida.
A partir do momento em que saí daquele hospital repleto de pessoas, que passados meros segundos naquele local se tornavam, para mim, como peças de xadrez, mas, as quais eu não mexia, não tocava nem pensava em mexer, tornando-se, dessa forma, meras estátuas, de cores e texturas diferentes, mas sempre algo incomunicável, com as quais somente por uma questão de educação e de profissão me obrigam a dizer umas simples palavras, visto que numa cirurgia somente se fala com as mãos, nada mais.
Quando pouso o meu corpo cansado, frio e mole naqueles acentos finos de pele bege, sinto-me em casa, num dos pequenos locais do meu pequeno mundo, aquele que por vezes me torna num mero robô entre tantos mais que por lá existem.
Vejo-me no retrovisor, quando os meus olhos atingem a imagem daquela pessoa cansada, fria, sinto-me de uma forma péssima.
Os meus olhos, secas até então, tornam-se húmidos, salgados, as lágrimas que neles crescem, se desenvolvem, embaciam-me o olhar, vendo algo assemelhado a um nevoeiro espesso, baixo, que se torna cada vez mais implacável a cada momento que passa.
Rapidamente, saiu daquele local, deslocando-me para um sitio sem sentido definido.
Escassos momentos passados, olhei com uma certa indecisão para o local que realmente seguia, e vi-me a estacionar naquele jardim, aquele que me faz suspirar e sentir feliz, nem que seja por escassos momentos.
Saí do carro com uma agilidade que nem eu própria sabia possuir. Rapidamente, trespassei a linha de grandes plátanos e entrei no coração do meu mundo.
O cheiro a erva acabada de cortar, as flores de mil cores e feitios, os bancos de madeira áspera com a tinta branca a descascar devido a tanta chuva, sol, e vento pelos quais já passaram. Ali, tudo permanecia igual, como há vinte anos atrás.
Naquele jardim, eu sentia-me novamente com cinco anos, a menina com as tranças compridas cor de chocolate de leite, a pele braça como a neve, os olhos verdes que se assemelhavam a topázios. Os vestidinhos coloridos e simples que por muitos e muitos anos suportaram os meus maus-tratos, as lavagens sem fim, os rasgões cozidos e recozidos vezes sem conta.
Era assim que me sentia naquele preciso momento, um menina, sem preocupações, sem quaisquer problemas, somente com uma vida feliz.
Relembrava agora as memórias que me permitiam o curto mas intenso momento de felicidade, sentada na relva molhada, rodeada de formiga e outras espécies de bichinhos um tanto ou quanto invisíveis.
Quando ia lá com os meus pais, aqueles que agora desapareceram, em que me deitava a rebolar no chão juntamente com os meninos que lá estavam, eu ficava contente, como se me tivessem dado o maior presente de todos.
A sensação de liberdade rodeada de carinho, paz e amor deixava-me tranquila, satisfeita com a minha curta mas intensa vida.
A partir do momento em que os meus pais desapareceram da minha vida eu fiquei sozinha. Aquele injusto acidente em que a única culpada foi a chuva que tornava as estradas em rios e as cidades em oceanos levara-os no dia em que eu completara os meus dez anos.
Desde aí as minhas memórias felizes escassearam, guardando e relembrando somente aquelas já vistas e revistas, pensadas e relembradas vezes sem conta.
No emaranhado dos meus pensamentos, algo estranho e diferente sobressalta o um olhar, conduzindo-o ao ponto central do jardim.
Raramente ligo a barulhos, a habituação já e de tal forma grande que não sei o porque de este me ter despertado algum interesse.
Pus os ouvidos á escuta, e, só aí me apercebi de que aquele som abafado, quase inaudível, mas, predominantemente triste, saltava por entre as arvores, tocava os meus delicados ouvidos como se neles fizesse festas, pedindo para entrar, era um choro.
Por momentos pensei estar a sonhar, mas, rapidamente reparei que era tudo verdade, e assim, fui vasculhando por entre as árvores, tentando seguir aquele som.
Quando os meus olhos atingiram a fonte daquele choro desesperado e imaturo, as minhas forças perderam-se e o meu corpo atingiu o ponto estátua, sem conseguir transparecer qualquer pensamento de movimento.
Era uma criança, mais especificamente, uma menina.
Os seus caracóis loiros e brilhantes formavam cacho que lhe cobriam as costas. A pele pálida sem qualquer imperfeição aparentava um aspecto frágil. Os olhos numa cor que nunca antes tinha visto aparentavam um tom cinzento claro, do mais belo que já vira.

sexta-feira, 24 de julho de 2009


Desassossego

A Raquel é o sossego, Uma pessoa calma, calada, que transmite paz e sossego de uma forma alucinante.
A sua calmidão assemelha-se á calma de um anjo e fala e ri tão pouco que junto dela o sossego e a concentracção nasce sem nunca morrer.

Biblioteca sem Visão

Um dia, decidi ir á biblioteca. Um dos meus locais preferidos.
A forma da biblioteca? Não sei, mas também isso não tem grande inportância.
Já a conheço há muito tempo e a frequência com que a visito é também bastante grande.
Quando subo as escadas da entrada, aquelas escadas altas de um material duro e rogoso, sinto-me como se já tivesse ganho uma das muitas que travo durante o dia.
Mal passo a porta, aquele cheiro bastante seu característico inundame, afundando-se até ao ponto mais profundo do meu ser.
O odor dos livros velhos, os que já lá permanecem há anos e anos seguidos, misturado com o odos dos livros novos, os acabados de chegar, tendo alguns ainda um travo do cheiro do local onde foram fabricados.
Os meus pés, de tão habituados que já estão, levaram.me á sala com livros adequados para mim.
Este é o meu mundo naquela biblioteca tão grande.
As paredes rogosas, os sofás fofos e com uma textura lisa. As estantes que cobrem as paredes que estão cobertas de todo o tipo de livros. E, ao fundo, uma janela, que deixa o calor entrar naquela sala, por vezes fria, por vezes quente.
Passo lá horas entretida nos romances históricos, coédias, poesia e tudo o resto que lá existe.
Outras vezes, fico sentada, a olhar para os meus pensamentos, visto que são a única coisa que posso visualizar na minha cabeça.
Ser cega nunca significou parar de viver, mas sim viver uma vida diferente.

Amizade Encantada

Tudo começou quando parti com o meu pai à procura de uma pequena arvorezinha para adicionar à minha casa.
Aí, conheci um escaravelho, que, quando trouxe para casa me fugiu.
Eu segui-o até á floresta e foi aí que tudo começou.
Vi uma flor, murcha, e, ao molhá-la apenas com umas pequenas gotas de água límpina, esta cresceu, cresceu, cresceu, até ficar maior que uma árvore.
Eu, sem saber o caminho de casa, adormeci junto a esta, e ela como que sabendo isso, libertou uma das suas pétalas gigantes e tornou-a como um cobertor quente e fofo.
Os meus pais apareceram, eu fui para casa, enquanto que todos na cidade miravam aquela flor gigante ao anoitecer, pois ninguém queria aproximar-se de tal coisa.
No dia seguinte, a minha vontade de a ver era tão grande, que mal o primeiro raio de sol penetrou pelas cortinas verdes do meu quarto e me atingiu as faces rosadas eu saltei da cama, e, com o pijama, corri na sua direcção.
Esta encontrava-se tal e qual como a tinha visto ao partir no dia anterior, apenas, talvez, com uma intensificação nas cores que a constituíam e um pouco maior.
Sentado a seu lado decidi começar um diálogo que, de certeza, seria só meu.
Com uma expectativa reduzida de obter resposta,disse:
-Olá flor!
E ela rapidamente respondeu:
-Bom dia, Pedro! Não é muito cedo para já aqui andares?
Como se me tivessem dado um choque, dei um salto, a minha pele adquiriu um tom branco e o meu coração batia de uma forma tão acelarada que parecia queimar-me enquanto respirava.
Era tudo tão surreal que parecia que estava num mundo encantado.
Ela rapidamente e preocupadamente se apressou a falar-me visto o meu estado de choque.
-Calma Pedro! Sou tua amiga, não estou aqui para te fazer mal! Só queria ter um amigo!
A sua voz melodiosa que se assemelhava a um canto, mas com umas notas de preocupação e desespero entrou pelos meus ouvidos, fazendo eco na minha cabeça.
Não a questionei, porque se o fizesse, poderia ouvir, algo que não gostasse ou que me entristecesse.
A partir daquele momento, a ,minha vida alterou-se bastante.
Quando estava longe tinha uma vida normal, como qualquer um. Mas, sempre que podia, ía ter com ela, e aí, tudo se tornava belo e encantado.
Foram diálogos de horas, serenatas ao luar, e sempre com a companhia do escaravelho, que, por mais estranho que pareça, nos visitáva todos os dias.
Diariamente, brincávamos, ríamos, ou, por vezes, apenas estávamos em silêncio, a olhar aquela paisagem sem fim, com uma beleza gigantesca que captáva para ela quaisquer olhos.
Foi assim que a minha vida se tornou um misto de realidade e fantasia.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Casamento de Morte

Acidente em cadeia causa polémica.
A pacata vila de Alijó foi alvo de um grande acidente em cadeia.
Após o casamento de Joana e Mário, decorreu um pequeno passeio pela vila até á chegarem á estrada do carro dos noivos obrigando estes a travarem causando um acidente em cadeia.
Esta catástrofe causou 28 feridos ligeiros, 58 feridos graves.
Houve duas mortes, e estas foram o casal que se tinha casado há apenas dez minutos.

Voo do luar


O mar estava junto ao rapaz repleto de gaivotas.
Elas estavam mortas de animação porque o rapaz lhes deu pão.
Depois da brincadeira, o luar forte voou para além das gaivotas, iluminando as faces marmoreadas do rapaz.

Degelo

Eu sou fria
O gelo é frio
Logo, eu sou gelo
Por isso vou derretercom o aquecimento global.

S...S...S

O santo safado da colecção tinha sapatilhas sintéticas e sinos.
O sapo sazonal subiu ao cimo da sociedade.
O suricate de cimento almoçou salmão com sal no saco e sumiu com a sanguessuga de sabonete para o safari.

Transparência

Já estou aqui há muito tempo, mais do que muitos imaginam, mas, mesmo assim, a minha vida continua felicíssima.
A paisagem que me rodeia é verdejante e florida, visto que estou virada para um grande jardim.
Todos os dias existem coisas novas.
São os olhares curiosos que me tentam trespassar com o intuíto de ver as coisas que atrás de mim se encontram.
São os olhares vaidosos e por vezes convencidos que me tentam utilizar como espelho.
Sonhos? Tenho muitos, mas, o meu maior sonho era que reconstruíssem a casa onde vivo, aquela que protejo nos dias de vento.
Se todos me pudessem tocar, olhar, tudo seria tão bom, tudo seria novo.
Tenho um grande receio, apesar de talvez banal, atormenta-me muitas vezes em pesadelos que parecem não ter fim. O meu medo é que uma bola, uma pedra, me trespass, deixando um buraco.
A dor que isso me causaria seria de tal forma intensa que ouso compará-la à de uma espada a trespassar o coração de um guerreiro. Aquela dor da derrota, de saber que a protecção que eu forneço deixa de ser segura.
Mas, consigo viver com esses sonhos e medos que tanto tornam as minhas noites claras e coloridos como negras e frias.
Durante muito tempo fui uma janela imponente, mas neste momento, não sou mais que um pedaço de vidro.
Quando a minha casa era habitada, todos falavam do meu aspecto robusto mas delicado, simples mas elaborado.
Era e sou uma janela forte que aguentava com grandes tempestades sem qualquer problema.
Na alturaem que ainda era limpa o meu brilho reluzia chamando a atenção de todos os que por mim passavam.
Agora, sou uma janela suja, baça.
A tinta que dantes era dourada, agora apresenta um tom amarelado e está a descascar.
Antes era algo bonito de se ver, agora, sou uma simples janela de um solar abandonado.

Diferente

Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos
Ninguém pode provar que é mais que diferente
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as
Coisas
Ter consciência é mais que ter cor?
Não sei

Duas pedras rolaram
Se sou mais que uma pedra ou uma planta?
sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos
sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas
não sei mais nada.

Comove-me a imensidão hermética do teu corpo
Há muito que perdes-te a lembrança do caminho do
Regresso
Que de mim
Ousa conhecer a memória do teu passado

A forma ausente com que dissimulas a ignorância
Só me obriga a ser consciente

Vens de longe
Nem sabes muito bem de onde.

Há muito esqueceste o cheiro do teu país
Sim: há diferença
Mas não é a diferença que encontras.