Sento-me no topo do prédio. Penso, o que estou eu aqui a fazer?
Foi um dia longo, díficil, monótono e aborrecido, mas nada ao que eu não estivesse habituada, tem de haver de tudo, senão não damos valor ao que é realmente bom, ao que nos dificulta adormecer devido a tão grande agitação, que nos entra nos sonhos sem pedir por favor e nos enfeitiça até ao final do dia seguinte.
Sim, é assim que eu me sinto quando algo corre bem, alegremente e de uma forma feliz. Como muitos dizem, um sorriso vale mais que mil palavras, então, porque não espalhar sorrisos e tornarmo-nos alegres palhaços sem os fatos coloridos e os narizes vermelhos?
Quando acordo de manha e, ao olhar para o espelho vejo alguém com um sorriso nos lábios, o cabelo despenteado e a cara pálida, penso, realmente, ser feliz é a melhor coisa do mundo.
Nesses dias, o sol brilha com um tom mais amarelado e quente, a leve brisa quente e fofa parece fazer-me festas quando toca o meu corpo, o chão que piso aparenta ser fofo e aveludado, todo o meu mundo torna-se um pouco como um parque de diversões. Todos correm, todos riem, todos se divertem. Os pássaros assemelham-se a gomas gigantes voadoras e as pequenas nuvens têm um travo a algodão doce. Nesses dias, tudo se torna tão infantil, reluzente e feliz que nada o pode acabar.
Há dias bons, …há dias maus, aqueles em que o mundo aparenta desabar sobre nós, em que os pés tremem sobre umas meras areias que em rápidos momentos podem escapar-me dos pés e deixar-me cair num abismo. Os raios de sol não têm força para trespassar as espessas nuvens negras que me atormentam.
Sem dúvida, há dias de tudo, dias de paixão, dias de desgosto, dias de felicidade e alegria, dias de tristeza e escuridão,…
Este, foi um dia de nada, um dia em que nada tem significado, em que tudo parece ser o que não é.
Os raios de sol tocam-me os cabelos sedosos e brilhantes, os olhos tornam-se espelhos e mostram aquilo que vejo, o corpo cansado quase desaparece na cadeira que trouxe para cima. Mas acima de tudo, os pensamentos voam como pássaros, vão para longe e voltam com novas ideias, novas imagens, novas palavras.
Olho em frente, vejo um mundo cheio de tudo, vejo algo que posso alcaço esticando a mão, mas que rapidamente me escorre pelos dedos esguios e frios.
Nada é o que realmente penso, nem o que realmente sinto, mas não há problema nenhum se viver num pouco de ilusão.
"As «histórias» dos meus livros são desde há muito dadas por manchas como uma pintura."
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Manto Negro
Sinto um sopro frio, gélido, que trespassa todo o meu ser, a minha alma, o meu corpo tentam tornar-se simples, insignificantes e robustos cubos de gelo, mas eu não o permito.
Já passei por muito, e já a derrotei vezes sem conta, mas também, já tantos se ficaram nos meus braços sem eu a sentir, sem eu a ver, sem eu cheirar aquele odor seco e fresco, doce e amargo, simples e intenso, aquele odor que me faz arder as narinas cada vez que o inalo.
Sim, é verdade, já nos encontramos bastantes vezes, mas nunca nenhuma dessas vezes o seu intuito era levar-me, mas agora é, agora ela quer tirar-me a vida.
Sinto o seu toque suave no meu braço arrepiado, o meu sangue tenta afastar-se dela parecendo concentrar-se num só ponto do meu corpo, um local que penso ela não conseguir chegar.
Agora sim, sinto-a, vejo-a, é tão diferente do que o que pensava. Uma cara humana e afável encontra-se no meio de um tecido preto aveludado que me acaricia as pernas. Toda ela é humana, sem foices nem nenhum objecto cortante, apenas é a morte.
Nada mais que isso, mas muito mais do que o que devia.
Sinto as palavras a esvaírem-se em letras soltas, sinto a vida tornar-se em simples memórias e as memórias em meras fotografias.
A morte, aquela pessoa de capa preta, cabelo cor de bronze, olhos pretos e pele branca como a pele acompanha cada um destes meus passos, como se fosse sempre assim, tornando-se monótono e entediante.
A minha vida terminou, depois de perder tantos nas minhas mãos, chegou a altura de ser eu a perder-me nas mãos de alguém. Não tenho pena disso, vivi o que tinha a viver e nada mais que isso, fiz o que devia ter feito, senti o que devia ter sentido, e não me arrependo disso, não me arrependo de nada, menos de poder dizer a todos que a morte é algo tão belo, tão simples, que nos faz querer dar-lhe a nossa alma, faz-nos querer ir sem qualquer medo ou receio.
Ninguém a vê, mas ela existe, não pede permissão para abrir a porta, mas entra sem qualquer dificuldade, sem ninguém para a debater.
Depois de ela aparecer, depois de saber o meu destino, somente lhe pedi uns minutos para escrever uma pequena carta, algo que eu queria escrever há muito, mas que não tivera ainda força para isso, não que seja algo complicado, mas sim algo estranho, parecia que existia uma barreira que me impedia de o escrever, de expressa-lo para uma folha.
Esta concedeu-me este último pedido, esperando ansiosamente para que eu terminasse.
Então, aqui vai:
Porto, 27 de Agosto de 2107
Querida Amiga,
Olho através da transparência suja da janela do meu quarto, o sol brilha radiante e contente, este não pressente a minha morte, mas eu sei que ela se avizinha, nós sabemos não é? Eu sei que sim.
Agora que penso, não é o sol que interessa, nem o sol, nem nada interessa, para além de nós, aquelas que antes eram desconhecidas, mas que agora fazem parte uma da outra.
A minha hora chegou, tudo o que sinto é insensível mas doloroso.
Só neste momento é que percebo o que a minha vida foi, e o que teria sido sem ti. Foste os meus pilares durante tantos anos, mas nunca enfraqueces-te, não houve uma só tempestade que te fragilizasse, não houve um raio de sol, por mais forte que fosse, que te conseguisse trespassar. Foste, e és, aquela que eu gostava de ser, mas que não conseguira.
Não me arrependo de o dizer, porque foi a verdade, durante dias a fio eu queria ser como tu, simpática, sociável, bondosa, mas não sei, não consegui. Daí nos dar-mos tão bem, daí nos completarmos uma á outra, formando um puzzle com as peças completas, mas sem uma imagem definida.
Quando, por algum motivo, havia uma zanga entre nós, eu sofria, sofria tanto, mas só quando me apercebi da força desse sofrimento é que reparei o quanto precisava de ti, o quanto tu me fazias falta, o quanto sabia bem ouvir as tuas palavras melodiosas a pairar nos meus ouvidos, o teu cheiro a perfume de franboesa a amaciar o meu nariz, o teu toque doce e por vezes atrapalhado em contacto com a minha pele.
Por muitos momentos senti falta de tudo isto e bastante mais. A pessoa que tu és não dá para descrever, és a pessoa indescritível que eu gostaria de ser mas não fui, és aquela que daria uma colecção inteira e mais algumas de livros da patrícia, mas que o seu significado seria incontávelmente maior.
Bem, está dito, agora sim, estou preparada para partir, não que não queira dizer mais um “adeus”, mais um “até logo”, mais um “és a melhor amiga de todo o sempre”, mas sei que estas pequenas palavras não conseguem acompanhar o teu verdadeiro eu que a maioria desconhece.
Portanto, fica somente um simples “até já”, pois eu estarei a ver-te, a guiar-te, a fazer aquilo que não tive tempo de fazer enquanto viva.
Joana
Agora sim, estou preparada para partir.
Dessa forma, a Morte soprou novamente, e rapidamente aquele ar gélido fez a minha alma saltar e a apanhou. Sim, era eu, já não era um corpo, mas somente uma alma que vai ao colo da Morte.
Passa-mos pela janela, senti um calafrio, se é que eu ainda sentia alguma coisa.
Assim seguimos o nosso fado, para mim desconhecido, para ela conhecido como a palma das suas mãos.
Senti-me segura, frágil mas forte, intocável, trespassável, invisível.
Ainda que morta, eu sentia, sentia todas as emoções, todas as memórias, somente tinha perdido o meu corpo, mas tudo permanecia igual, era a mesma pessoa, antes viva, agora morta.
Já passei por muito, e já a derrotei vezes sem conta, mas também, já tantos se ficaram nos meus braços sem eu a sentir, sem eu a ver, sem eu cheirar aquele odor seco e fresco, doce e amargo, simples e intenso, aquele odor que me faz arder as narinas cada vez que o inalo.
Sim, é verdade, já nos encontramos bastantes vezes, mas nunca nenhuma dessas vezes o seu intuito era levar-me, mas agora é, agora ela quer tirar-me a vida.
Sinto o seu toque suave no meu braço arrepiado, o meu sangue tenta afastar-se dela parecendo concentrar-se num só ponto do meu corpo, um local que penso ela não conseguir chegar.
Agora sim, sinto-a, vejo-a, é tão diferente do que o que pensava. Uma cara humana e afável encontra-se no meio de um tecido preto aveludado que me acaricia as pernas. Toda ela é humana, sem foices nem nenhum objecto cortante, apenas é a morte.
Nada mais que isso, mas muito mais do que o que devia.
Sinto as palavras a esvaírem-se em letras soltas, sinto a vida tornar-se em simples memórias e as memórias em meras fotografias.
A morte, aquela pessoa de capa preta, cabelo cor de bronze, olhos pretos e pele branca como a pele acompanha cada um destes meus passos, como se fosse sempre assim, tornando-se monótono e entediante.
A minha vida terminou, depois de perder tantos nas minhas mãos, chegou a altura de ser eu a perder-me nas mãos de alguém. Não tenho pena disso, vivi o que tinha a viver e nada mais que isso, fiz o que devia ter feito, senti o que devia ter sentido, e não me arrependo disso, não me arrependo de nada, menos de poder dizer a todos que a morte é algo tão belo, tão simples, que nos faz querer dar-lhe a nossa alma, faz-nos querer ir sem qualquer medo ou receio.
Ninguém a vê, mas ela existe, não pede permissão para abrir a porta, mas entra sem qualquer dificuldade, sem ninguém para a debater.
Depois de ela aparecer, depois de saber o meu destino, somente lhe pedi uns minutos para escrever uma pequena carta, algo que eu queria escrever há muito, mas que não tivera ainda força para isso, não que seja algo complicado, mas sim algo estranho, parecia que existia uma barreira que me impedia de o escrever, de expressa-lo para uma folha.
Esta concedeu-me este último pedido, esperando ansiosamente para que eu terminasse.
Então, aqui vai:
Porto, 27 de Agosto de 2107
Querida Amiga,
Olho através da transparência suja da janela do meu quarto, o sol brilha radiante e contente, este não pressente a minha morte, mas eu sei que ela se avizinha, nós sabemos não é? Eu sei que sim.
Agora que penso, não é o sol que interessa, nem o sol, nem nada interessa, para além de nós, aquelas que antes eram desconhecidas, mas que agora fazem parte uma da outra.
A minha hora chegou, tudo o que sinto é insensível mas doloroso.
Só neste momento é que percebo o que a minha vida foi, e o que teria sido sem ti. Foste os meus pilares durante tantos anos, mas nunca enfraqueces-te, não houve uma só tempestade que te fragilizasse, não houve um raio de sol, por mais forte que fosse, que te conseguisse trespassar. Foste, e és, aquela que eu gostava de ser, mas que não conseguira.
Não me arrependo de o dizer, porque foi a verdade, durante dias a fio eu queria ser como tu, simpática, sociável, bondosa, mas não sei, não consegui. Daí nos dar-mos tão bem, daí nos completarmos uma á outra, formando um puzzle com as peças completas, mas sem uma imagem definida.
Quando, por algum motivo, havia uma zanga entre nós, eu sofria, sofria tanto, mas só quando me apercebi da força desse sofrimento é que reparei o quanto precisava de ti, o quanto tu me fazias falta, o quanto sabia bem ouvir as tuas palavras melodiosas a pairar nos meus ouvidos, o teu cheiro a perfume de franboesa a amaciar o meu nariz, o teu toque doce e por vezes atrapalhado em contacto com a minha pele.
Por muitos momentos senti falta de tudo isto e bastante mais. A pessoa que tu és não dá para descrever, és a pessoa indescritível que eu gostaria de ser mas não fui, és aquela que daria uma colecção inteira e mais algumas de livros da patrícia, mas que o seu significado seria incontávelmente maior.
Bem, está dito, agora sim, estou preparada para partir, não que não queira dizer mais um “adeus”, mais um “até logo”, mais um “és a melhor amiga de todo o sempre”, mas sei que estas pequenas palavras não conseguem acompanhar o teu verdadeiro eu que a maioria desconhece.
Portanto, fica somente um simples “até já”, pois eu estarei a ver-te, a guiar-te, a fazer aquilo que não tive tempo de fazer enquanto viva.
Joana
Agora sim, estou preparada para partir.
Dessa forma, a Morte soprou novamente, e rapidamente aquele ar gélido fez a minha alma saltar e a apanhou. Sim, era eu, já não era um corpo, mas somente uma alma que vai ao colo da Morte.
Passa-mos pela janela, senti um calafrio, se é que eu ainda sentia alguma coisa.
Assim seguimos o nosso fado, para mim desconhecido, para ela conhecido como a palma das suas mãos.
Senti-me segura, frágil mas forte, intocável, trespassável, invisível.
Ainda que morta, eu sentia, sentia todas as emoções, todas as memórias, somente tinha perdido o meu corpo, mas tudo permanecia igual, era a mesma pessoa, antes viva, agora morta.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
a tristeza da noite
A noite transforma-se num cenário decadente e horripilante.
A memória que fracassara tentar esquecer tornam a queimar-me o corpo, tornando-se assim um pedaço de carvão ardente envolto em cinzas quentes.
O ardor faz-me dar gritos mudos, enquanto que as lágrimas não cessam de embaciar os meus olhos e tentar apagar o fogo que me corrói.
Continuo a olhar a noite sem a ver.
As memórias ocupam todo o meu ser, parecendo estar a ver um filme que eu queria não ser meu.
Quando este chegou ao fim caio no chão. As forças foram gastas durante aqueles escassos momentos de terror.
Olho em redor, estou sozinha. Somente as estrelas cintilantes e o barulho da natureza intocável me tentam reconfortar enquanto o suor escorre pelo meu corpo e juntamente com o mar que transborda dos meus olhos a minha roupa se encharcava.
Passados alguns minutos, consigo levantar-me e ver o céu.
O que antes me aparentava ser horrível, terrível, mortífero, agora demonstra-se algo meigo, acolhedor e talvez tímido.
A memória que fracassara tentar esquecer tornam a queimar-me o corpo, tornando-se assim um pedaço de carvão ardente envolto em cinzas quentes.
O ardor faz-me dar gritos mudos, enquanto que as lágrimas não cessam de embaciar os meus olhos e tentar apagar o fogo que me corrói.
Continuo a olhar a noite sem a ver.
As memórias ocupam todo o meu ser, parecendo estar a ver um filme que eu queria não ser meu.
Quando este chegou ao fim caio no chão. As forças foram gastas durante aqueles escassos momentos de terror.
Olho em redor, estou sozinha. Somente as estrelas cintilantes e o barulho da natureza intocável me tentam reconfortar enquanto o suor escorre pelo meu corpo e juntamente com o mar que transborda dos meus olhos a minha roupa se encharcava.
Passados alguns minutos, consigo levantar-me e ver o céu.
O que antes me aparentava ser horrível, terrível, mortífero, agora demonstra-se algo meigo, acolhedor e talvez tímido.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
se...-parte 5
A semana que se seguiu á aparição de Mariana na minha vida sem cor custou um pouco a passar.
Todos os dias a mesma rotina, sempre tudo igual sem nada de novo, de diferente.
Apenas uma coisa me obrigava a acordar daquele sono sem fim, pesado, repleto de sonhos escuros e tristes, tinha de verificar se na caixa de correio constava algo de diferente, algo de Mariana.
Ao sétimo dia já o desespero era de tal modo grande que travaria cento e uma batalhas para receber noticias daquela bela menina. Somente me questionava se algo de mau lhe tinha acontecido, mas rapidamente tentava retirar esses pensamentos deprimentes da minha confusa cabeça.
Ao acordar no dia seguinte tive o pressentimento de que iria obter notícias da caracóis dourados.
Sem pensar, saltei da cama fofa e quente, peguei nas chaves e saí.
Ao chamar o elevador cruzei-me com o vizinho da frente, que me olhou com um ar espantado. Só aí me lembrei que me encontrava tal e qual como tinha acordado.
Entramos os dois no elevador, e para meu grande constrangimento ele perguntou se eu estava a pensar ir trabalhar naqueles preparos, num tom de puro gozo maldoso.
Olhei-o com relutância mas sem resposta, e, quando chegamos ao rés-do-chão eu abri a porta do elevador e saí com tão grande indelicadeza e rapidez que só consegui ouvir o senhor expressar um ‘AU’ dorido.
Foi bem feito!
Corri em direcção á caixa do correio e com grande rapidez a abri e retirei-lhe o seu conteúdo.
Era um envelope pequeno, de um tom branco pálido e com um pequeno número de rugas.
Sim, era o que eu esperava desde o momento em que a vi partir, era uma carta de Mariana.
A coragem e alegria perderam-se ao pensar na quantidade de coisas que poderiam estar escritas naquele importante pedaço de papel amarrotado e envelhecido.
Subi agora sozinha para o apartamento e guardei a carta na carteira, com esperança de a poder ler durante o trabalho. Agora não me restava nem tempo nem coragem para o fazer, talvez mais tarde, no trabalho.
Todos os dias a mesma rotina, sempre tudo igual sem nada de novo, de diferente.
Apenas uma coisa me obrigava a acordar daquele sono sem fim, pesado, repleto de sonhos escuros e tristes, tinha de verificar se na caixa de correio constava algo de diferente, algo de Mariana.
Ao sétimo dia já o desespero era de tal modo grande que travaria cento e uma batalhas para receber noticias daquela bela menina. Somente me questionava se algo de mau lhe tinha acontecido, mas rapidamente tentava retirar esses pensamentos deprimentes da minha confusa cabeça.
Ao acordar no dia seguinte tive o pressentimento de que iria obter notícias da caracóis dourados.
Sem pensar, saltei da cama fofa e quente, peguei nas chaves e saí.
Ao chamar o elevador cruzei-me com o vizinho da frente, que me olhou com um ar espantado. Só aí me lembrei que me encontrava tal e qual como tinha acordado.
Entramos os dois no elevador, e para meu grande constrangimento ele perguntou se eu estava a pensar ir trabalhar naqueles preparos, num tom de puro gozo maldoso.
Olhei-o com relutância mas sem resposta, e, quando chegamos ao rés-do-chão eu abri a porta do elevador e saí com tão grande indelicadeza e rapidez que só consegui ouvir o senhor expressar um ‘AU’ dorido.
Foi bem feito!
Corri em direcção á caixa do correio e com grande rapidez a abri e retirei-lhe o seu conteúdo.
Era um envelope pequeno, de um tom branco pálido e com um pequeno número de rugas.
Sim, era o que eu esperava desde o momento em que a vi partir, era uma carta de Mariana.
A coragem e alegria perderam-se ao pensar na quantidade de coisas que poderiam estar escritas naquele importante pedaço de papel amarrotado e envelhecido.
Subi agora sozinha para o apartamento e guardei a carta na carteira, com esperança de a poder ler durante o trabalho. Agora não me restava nem tempo nem coragem para o fazer, talvez mais tarde, no trabalho.
se... - parte 4
Quando, de manhã, senti a luz a entrar na sala, atravessando os filamentos das cortinas rosa claro senti algo muito quente na minha face, era algo quente e fofo, era um toque simples e carinhoso, como que o toque do cetim. Com pouca coragem para virar os meus espelhos para o mundo, abri-os, a aí vi a menina mais bela que já vira em toda a minha vida.
Já antes a achava bonita, mas, a sua beleza pareceu aumentar a olhos vistos durante o sono.
Ela olhava-me com aqueles olhos grandes, cor de cinza, rodeados por longas pestanas loiras. O seu cabelo loiro estava ainda mais brilhante e parecia não ter um que fosse fora do sítio, nem mesmo devido ao sono. A pele continuava pálida e frágil mas sempre bela e quase intocável.
Esta, vendo a minha admiração por ela, apressou-se logo a dizer:
- Bom dia! Eu sou a Mariana, penso que ainda não tivemos uma única oportunidade para nos apresentarmos. Peço desculpa pelo incómodo. Julgo eu que me quer devolver ao jardim novamente, certo? – a sua expressão dura e triste, parecia sussurrar ao meu ouvido, dizendo – por favor, não me leves novamente para aquele local, não agora, fica comigo, dá-me carinho, por favor! .
Conseguindo ler aquilo na sua expressão, nos seus olhos, nas entre linhas das suas palavras, tudo o que eu consegui foi um silêncio; nada mais que isso.
Mariana, vendo-me de tal forma calada e pensativa, apressou-se a dizer que não era necessário preocupar-me com ela, somente a teria de levar para o local de onde a tirara na tarde do dia anterior.
A sua expressão não parecia ser de alguém de dez anos, mas sim de alguém com a minha idade, apesar de que alguns nem aos cem a conseguem ter. A independência existente nas suas palavras, demonstrava que tudo o que ela dizia significava o contrário do que ela queria e necessitava.
Rapidamente, tentei quebrar o silêncio que impusera poucos segundos antes:
- Bom dia Mariana! Eu sou a Teresa. E que tal se tomássemos o pequeno-almoço juntas?
Mariana rapidamente disse, já com uma expressão mais pacífica no rosto:
- Concerteza! É necessário ajudar em alguma coisa? Realmente, a fome já aperta um pouco.
De um salto, saí da cozinha e pus-me a preparar tudo o que achava ser necessário para um bom pequeno-almoço.
No final, a mesa estava repleta de comida, desde torradas, compotas, leite, café, cereais, todo e mais algum tipo de fruta, etc.
Mariana, entrando na cozinha após o meu chamamento, ficou estupefacta ao olhar para aquele banquete. Foi a primeira vez desde que a vira que as rosáceas das suas faces vieram até á superfície, mostrando o seu ar tímido.
Quando viu que eu reparara nela, rapidamente se sentou e começou a servir-se de tudo o que lhe agradava.
Deixei-a comer até parar. Quando isso aconteceu, comecei a minha conversa, pois, o que se estava a passar era tudo menos normal.
Demorei alguns minutos a descobrir as palavras correctas, aquelas que não soariam nem de uma forma muito interessada nem desinteressada demais.
Foi uma tarefa difícil, essa de escolher as palavras, daí não a ter conseguido executar da melhor maneira. Os meus pensamentos giravam na minha cabeça aparentado serem como um remoinho, daqueles que destroem tudo á sua volta.
Decididamente o meu forte não era pensar no que dizer nos momentos mais difíceis, mas sempre fui boa a dizer o que me vinha á alma, sem pensar, sem procurar se isso afectaria alguém, ou mesmo a mim própria. Raramente isso acontecia. Sempre fui bem sucedida em discursos de última hora, em momentos difíceis, momentos felizes. As palavras saem-me com a mesma facilidade com que respiro.
Naquele momento, pensar nas palavras não foi a melhor das ideias. Simplesmente decidi começar por algo simples, mas, Mariana, vendo a minha decisão e o meu ar pensativo, decidiu apressar-se e dizer:
- Eu sei o que deve estar a pensar…o porquê de eu estar naquele jardim, a chorar ofegantemente e de agora estar em sua casa sem fazer uma única pergunta, um único esclarecimento, certo?
A sua astúcia levou-me novamente a fazer comparações entre nós, mas, tentando não me dispersar muito no assunto, disse:
- Sim, é um pouco isso. Poderias tentar esclarecer-me por favor?
Mariana rapidamente respondeu:
- Ora bem, então o melhor é começar pelo princípio, mas por favor não me interrompa! – eu, acenando-lhe rapidamente e sem pronunciar qualquer palavra, disse-lhe, por gestos, para continuar, então ela rapidamente recomeçou – Há dois anos, fiquei órfã, os meus pais tiveram um acidente de carro num dia chuvoso, e não aguentaram aos graves ferimentos. Sou filha única, e não tinha família para além deles, portanto, estou num orfanato. Ontem, quando me viu no jardim, tinha fugido mais uma vez, mas, já faço isso com tanta frequência que ninguém me procura, somente esperam que eu apareça, um dia ou dois depois.
Eu, devia estar com uma aparência péssima naquele momento. Parecia que o coração me caíra aos pés, que o sangue parara de correr nas minhas veias, que a hematose pulmonar se tinha extinguido, que tudo no meu corpo para além do meu cérebro tinha deixado de funcionar, tornando-me assim um corpo semi-morto.
Mas, nada disse, e dessa forma, Mariana continuou:
- Provavelmente, a Teresa não sabe o que é passar por tudo isto, mas, quando se deixa de ter família, quando se deixa de ter casa, tudo se altera, parecendo que o mundo desaba sobre a nossa cabeça, que a nossa vida terminou naquele momento e que agora somos apenas mais uma alma morta que vagueia num corpo vivo mas sem vida.
Não consegui conter as lágrimas que agora desabrochavam nos meus olhos. Era impossível as semelhanças entre nós serem tantas, eram coisas a mais!
Quando a menina me viu a chorar, rápida e preocupadamente me perguntou o que se estava a passar, se eu queria que ela se fosse embora. Não aguentando o meu próprio silencio rapidamente disse:
- Não! Espera! Tenho muitas coisas para te dizer, muitas mesmo, espera só um minuto ate eu me recompor.
Mariana não disse nada, somente permaneceu sentada na cadeira, a meu lado. Eu, vendo o interessa misturado com a tristeza nas suas expressões, nos seus olhos, na sua face, comecei a falar:
- Um dia, também eu fui uma pessoa feliz como muitas outras crianças. Fazia o que todas fazem, e era amada pelos meus pais de uma forma incondicionalmente enorme. Um dia, bastante chuvoso,…- contei-lhe a mesma historia que vos contei a vós, e, quando lhe referi as coisas que entre nós eram parecidas, também Mariana ficou estranhamente calada e pensativa.
Passados alguns minutos de pensamento em conjunto, a menina falou:
- Realmente são muitas coisas em comum, apesar de más, são comuns.
Mais nada disse durante, no mínimo, dez minutos. Eu também não quis interferir naquele momento de tão bom silêncio.
Passados aparentemente, quinze minutos, já o silêncio tinha ultrapassado a sua parte boa, tornando-se agora triste e constrangedor.
Mariana, sem ser necessário pedir-lhe, arranjou-se e, mal eu repeti o ritual de todas as manhas, estávamos as duas preparadas para partir.
Não trocamos mais palavras até chegarmos novamente aquele local que nos reaviva as memórias.
De um salto, saímos do carro, e ficamos as duas a mirar aquele belo jardim, que por momentos, longos ou breves se tornava quase como a mãe que n tínhamos, que nos acolhia como ninguém o fazia até então.
Passados breves instantes de reflexão, ambas nos olhamos num misto de melancolia e solidão.
Visto que eu tinha de voltar para o hospital e Mariana tinha de voltar para o orfanato tivemos de por um fim naquele momento gratificante mas doloroso.
Eu, após dar um passo na sua direcção, não aguentei a pressão e abracei-a. Esta, permaneceu quieta, assemelhando-se a uma estátua. Quando a libertei dos meus braços, Mariana olhou-me com um pouco de admiração e felicidade. Perguntei-lhe qual era o orfanato onde ela estava, mas, esta somente me respondeu que eu teria notícias dela em breve. Não a questionei, pois, via no seu rosto, que o que dissera era verdade.
Mariana, sem dizer um adeus, virou-se e seguiu em frente, num passo de bailarina, dançante e leve.
Eu, também, não me preocupei em dizer-lhe algo, visto que sabia que aquilo não seria um adeus, mas um simples até já.
Já antes a achava bonita, mas, a sua beleza pareceu aumentar a olhos vistos durante o sono.
Ela olhava-me com aqueles olhos grandes, cor de cinza, rodeados por longas pestanas loiras. O seu cabelo loiro estava ainda mais brilhante e parecia não ter um que fosse fora do sítio, nem mesmo devido ao sono. A pele continuava pálida e frágil mas sempre bela e quase intocável.
Esta, vendo a minha admiração por ela, apressou-se logo a dizer:
- Bom dia! Eu sou a Mariana, penso que ainda não tivemos uma única oportunidade para nos apresentarmos. Peço desculpa pelo incómodo. Julgo eu que me quer devolver ao jardim novamente, certo? – a sua expressão dura e triste, parecia sussurrar ao meu ouvido, dizendo – por favor, não me leves novamente para aquele local, não agora, fica comigo, dá-me carinho, por favor! .
Conseguindo ler aquilo na sua expressão, nos seus olhos, nas entre linhas das suas palavras, tudo o que eu consegui foi um silêncio; nada mais que isso.
Mariana, vendo-me de tal forma calada e pensativa, apressou-se a dizer que não era necessário preocupar-me com ela, somente a teria de levar para o local de onde a tirara na tarde do dia anterior.
A sua expressão não parecia ser de alguém de dez anos, mas sim de alguém com a minha idade, apesar de que alguns nem aos cem a conseguem ter. A independência existente nas suas palavras, demonstrava que tudo o que ela dizia significava o contrário do que ela queria e necessitava.
Rapidamente, tentei quebrar o silêncio que impusera poucos segundos antes:
- Bom dia Mariana! Eu sou a Teresa. E que tal se tomássemos o pequeno-almoço juntas?
Mariana rapidamente disse, já com uma expressão mais pacífica no rosto:
- Concerteza! É necessário ajudar em alguma coisa? Realmente, a fome já aperta um pouco.
De um salto, saí da cozinha e pus-me a preparar tudo o que achava ser necessário para um bom pequeno-almoço.
No final, a mesa estava repleta de comida, desde torradas, compotas, leite, café, cereais, todo e mais algum tipo de fruta, etc.
Mariana, entrando na cozinha após o meu chamamento, ficou estupefacta ao olhar para aquele banquete. Foi a primeira vez desde que a vira que as rosáceas das suas faces vieram até á superfície, mostrando o seu ar tímido.
Quando viu que eu reparara nela, rapidamente se sentou e começou a servir-se de tudo o que lhe agradava.
Deixei-a comer até parar. Quando isso aconteceu, comecei a minha conversa, pois, o que se estava a passar era tudo menos normal.
Demorei alguns minutos a descobrir as palavras correctas, aquelas que não soariam nem de uma forma muito interessada nem desinteressada demais.
Foi uma tarefa difícil, essa de escolher as palavras, daí não a ter conseguido executar da melhor maneira. Os meus pensamentos giravam na minha cabeça aparentado serem como um remoinho, daqueles que destroem tudo á sua volta.
Decididamente o meu forte não era pensar no que dizer nos momentos mais difíceis, mas sempre fui boa a dizer o que me vinha á alma, sem pensar, sem procurar se isso afectaria alguém, ou mesmo a mim própria. Raramente isso acontecia. Sempre fui bem sucedida em discursos de última hora, em momentos difíceis, momentos felizes. As palavras saem-me com a mesma facilidade com que respiro.
Naquele momento, pensar nas palavras não foi a melhor das ideias. Simplesmente decidi começar por algo simples, mas, Mariana, vendo a minha decisão e o meu ar pensativo, decidiu apressar-se e dizer:
- Eu sei o que deve estar a pensar…o porquê de eu estar naquele jardim, a chorar ofegantemente e de agora estar em sua casa sem fazer uma única pergunta, um único esclarecimento, certo?
A sua astúcia levou-me novamente a fazer comparações entre nós, mas, tentando não me dispersar muito no assunto, disse:
- Sim, é um pouco isso. Poderias tentar esclarecer-me por favor?
Mariana rapidamente respondeu:
- Ora bem, então o melhor é começar pelo princípio, mas por favor não me interrompa! – eu, acenando-lhe rapidamente e sem pronunciar qualquer palavra, disse-lhe, por gestos, para continuar, então ela rapidamente recomeçou – Há dois anos, fiquei órfã, os meus pais tiveram um acidente de carro num dia chuvoso, e não aguentaram aos graves ferimentos. Sou filha única, e não tinha família para além deles, portanto, estou num orfanato. Ontem, quando me viu no jardim, tinha fugido mais uma vez, mas, já faço isso com tanta frequência que ninguém me procura, somente esperam que eu apareça, um dia ou dois depois.
Eu, devia estar com uma aparência péssima naquele momento. Parecia que o coração me caíra aos pés, que o sangue parara de correr nas minhas veias, que a hematose pulmonar se tinha extinguido, que tudo no meu corpo para além do meu cérebro tinha deixado de funcionar, tornando-me assim um corpo semi-morto.
Mas, nada disse, e dessa forma, Mariana continuou:
- Provavelmente, a Teresa não sabe o que é passar por tudo isto, mas, quando se deixa de ter família, quando se deixa de ter casa, tudo se altera, parecendo que o mundo desaba sobre a nossa cabeça, que a nossa vida terminou naquele momento e que agora somos apenas mais uma alma morta que vagueia num corpo vivo mas sem vida.
Não consegui conter as lágrimas que agora desabrochavam nos meus olhos. Era impossível as semelhanças entre nós serem tantas, eram coisas a mais!
Quando a menina me viu a chorar, rápida e preocupadamente me perguntou o que se estava a passar, se eu queria que ela se fosse embora. Não aguentando o meu próprio silencio rapidamente disse:
- Não! Espera! Tenho muitas coisas para te dizer, muitas mesmo, espera só um minuto ate eu me recompor.
Mariana não disse nada, somente permaneceu sentada na cadeira, a meu lado. Eu, vendo o interessa misturado com a tristeza nas suas expressões, nos seus olhos, na sua face, comecei a falar:
- Um dia, também eu fui uma pessoa feliz como muitas outras crianças. Fazia o que todas fazem, e era amada pelos meus pais de uma forma incondicionalmente enorme. Um dia, bastante chuvoso,…- contei-lhe a mesma historia que vos contei a vós, e, quando lhe referi as coisas que entre nós eram parecidas, também Mariana ficou estranhamente calada e pensativa.
Passados alguns minutos de pensamento em conjunto, a menina falou:
- Realmente são muitas coisas em comum, apesar de más, são comuns.
Mais nada disse durante, no mínimo, dez minutos. Eu também não quis interferir naquele momento de tão bom silêncio.
Passados aparentemente, quinze minutos, já o silêncio tinha ultrapassado a sua parte boa, tornando-se agora triste e constrangedor.
Mariana, sem ser necessário pedir-lhe, arranjou-se e, mal eu repeti o ritual de todas as manhas, estávamos as duas preparadas para partir.
Não trocamos mais palavras até chegarmos novamente aquele local que nos reaviva as memórias.
De um salto, saímos do carro, e ficamos as duas a mirar aquele belo jardim, que por momentos, longos ou breves se tornava quase como a mãe que n tínhamos, que nos acolhia como ninguém o fazia até então.
Passados breves instantes de reflexão, ambas nos olhamos num misto de melancolia e solidão.
Visto que eu tinha de voltar para o hospital e Mariana tinha de voltar para o orfanato tivemos de por um fim naquele momento gratificante mas doloroso.
Eu, após dar um passo na sua direcção, não aguentei a pressão e abracei-a. Esta, permaneceu quieta, assemelhando-se a uma estátua. Quando a libertei dos meus braços, Mariana olhou-me com um pouco de admiração e felicidade. Perguntei-lhe qual era o orfanato onde ela estava, mas, esta somente me respondeu que eu teria notícias dela em breve. Não a questionei, pois, via no seu rosto, que o que dissera era verdade.
Mariana, sem dizer um adeus, virou-se e seguiu em frente, num passo de bailarina, dançante e leve.
Eu, também, não me preocupei em dizer-lhe algo, visto que sabia que aquilo não seria um adeus, mas um simples até já.
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