segunda-feira, 10 de outubro de 2011

runaway train never comes back

Os comboios não esperam. Partem entre despedidas e lágrimas mordidas que sangram quando o mundo se transforma numa pintura abstracta.
As crianças deixam cair as bonecas de trapos para as linhas da morte e os pais agarram-nas antes de a brisa vir destroçar os sonhos de brincadeiras que nunca irão acontecer.
Enquanto ninguém olha, são deixados para trás os olhares descarnados de vida que se estilhaça nas paredes por entre mãos carregadas de raiva e ódio.
E fogem. Fogem todos. Porque os passos são largos e cada dia é um par de minutos que tal como as palavras e os sonhos se gastam.
Os cabelos loiros vão pousados nos ombros de um qualquer banco ao invés de voarem através da janela, e enquanto o mundo gira para o lado contrário, eu acaricio o livro que me acompanha. Não há mais ninguém. O comboio morre dentro de mim enquanto uma nova história surge com a rapidez de uma reacção entre ácido e água.
Perco-me nas tuas palavras, nos teus dedos, na angústia que te consome e ateia o fogo da tua voz.
Caminho sozinha por entre ruas de pedra. Ruas que cinzentas experimentam a frieza da noite.
Fugi outra vez, e a cada passo me arrependo. Não de ter fugido, mas sim de não ter tomado essa atitude mais cedo, antes mesmo de me teres partido os sonhos e escurecido os pensamentos. Porque as palavras ditas por ti ficaram guardadas e esquecidas, mas quando relembradas, queimaram-me a alma e julguei as trevas meu lar.

Num palco negro nascem luzes


Num palco negro nascem luzes. Diamantes falsos dos tutus das bailarinas que em passo apressado brilham ao longe como olhos curiosos em noites escuras. A vela do espectáculo acende-se e apaga-se enquanto o vento sopra devagarinho.
Por trás das cortinas o mundo nasce todas as noites. Roupas, cabelos, sapatilhas de ballet perdidas.
Tic tac, o tempo não espera. O ranger das cadeiras acelera corações e o murmurar do público faz soar sinetas.
O espectáculo começa. Passos de valsa apressam a respiração. Sente-se um aperto e o chão move-se mais rápido que a bailarina. Incandescente está a lua e o sorriso cresce.
Notas de música não param. Caminham, apressam o andar e acabam correndo sem fôlego.
Por trás do palco as bailarinas esperam pelo seu momento. Roem unhas e riem baixinho. Porque elas são quem são quando ninguém está a ver. Porque as mãos transpiram e o batôn se esborrata quando está no momento de entrar. Porque o passo atrás quer ser maior do que o passo à frente.
Cantam canções de embalar quando ninguém ouve e dançam sozinhas numa sala vazia. Arrependem-se e querem voltar atrás. Estão sozinhas. Querem chorar mas têm medo de estragar a maquilhagem que mais parece um quadro. Sentadas no chão as bailarinas sabem que vai chegar o momento de tocar com a ponta da sapatilha no palco e fazer magia.
Respiram fundo e lembram-se dos sorrisos e das histórias de encantar. O momento é delas.
Com o mundo a seus pés, a bailarina, numa pirouette que acaba em plié põe fim a um sonho de uma noite.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

caderno de memórias



Sinto saudades das palavras a fluirem tal qual folhas ao vento, dos sorrisos doces, dos olhos ansiosos e melancólicos, sinto saudades de ti.
Daquele que em tempos enchia uma sala mesmo que só dentro dela estivessemos nós, daquele que me acarinhava cautelosamente durante as tempestades que decorriam dentro de mim.
Preciso que voltes novamente, e contigo tragas a parte que me roubaste, que me tiraste sem eu dar conta e que levaste somente com o intuito de me deixar sem nada, porque tu sabias o quanto eu amava essa parte que foi contigo, não foi a alegria, não foi a tristeza, não foram as memórias, foi a imaginação e a capacidade de eu ser especial, de escrever como mais ninguém escrevia, de encantar os outros com uma mera frase feita à pressa, de ser eu mesma, mas formada por letras e não por células.
Essa parte tu não permitiste que ficasse comigo. Porquê? Sabes que sem ela não sou nada, tiraste-me o meu "eu" verdadeiro, deixaste-me ficar vazia como um velho tronco caído ao abandono no meio da floresta.
Nem o teu sorriso, nem as tuas lágrimas me fariam saber quão maldoso foste ao levar-me assim contigo, porque na realidade foi o que tu fizeste. Não quiseste abrir mão do que de especial tinhas e então levaste sem uma mínima palavra, uma mera frase escrita no vidro da entrada como tantas vezes fazias.
Sabes uma coisa? Sinto saudades, tantas saudades daquelas tardes quentes em que tu me vias escrever, eu sentada no meio do jardim com o caderno entre as flores, e tu, ao longe, sentado na cadeira de balanço que estava no alpendre. Depois eu ía, deslumbrada com a tua imagem, o sol do fim da tarde a bater-te nos cabelos castanhos, os teus olhos brilhantes, e tu pegavas no caderno e lias, lias em voz alta como se para uma multidão se tratasse, por vezes rias, outras vezes conseguia ver uma lágrima a escorrer discretamente por entre as páginas do caderno. Um mero caderno, mas cheio de vida, de sentimentos, um caderno que era a nossa alma, a nossa existência.


Podes-me ter tirado o caderno, podes-me ter tirado a capacidade de escrever como dantes, mas não me tiraste uma coisa, a vontade de viver, essa permanece, portanto, podes ficar com as memórias do passado, porque eu ainda tenho muitos mais cadernos para preencher no futuro.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Bate forte coração, bate

Bate forte coração, bate.
Bate como se não houvesse amanhã, daquela maneira ofegante e sem ritmo que te deixa sem fôlego.
Bate levezinho, de mansinho, sem criar qualquer aforro entre o trânsito da tua alma.
Bate destemido, guerreiro com a mais importante das armas, aquela que te deu vida, há muito tempo, ao sol nascente, entre beijos acariciantes e doces daqueles que um dia se amaram de tal forma que tiveram o desejo de que tu batesses. Nessa altura os seus corações bateram de tal forma que se uniram num só e daí tu nasceste.
Batias devagarinho, juntinho a mim, e eu ouvia o teu coração junto ao meu.
Bateste feliz quando corremos nos campos verdes e floridos, o sol batia nos teus cabelos de ouro e as tuas faces rosadas faziam-me sonhar num dia melhor.
Bates-te sozinho quando te isolas-te e não deixas-te ninguém entrar no teu mundo negro e sufocante.
Bateste esperançoso quando viste a primeira flor de Primavera a nascer por entre a neve reluzente.
Bateste choroso quando recebes-te aquela notícia que te deixou triste.
Bateste sonhador durante todas aquelas noites em que o mundo era algo novo e encantado.
Agora, bates sem sentido, com aquele tremor leve do vazio que te abraça a alma, mas sabes que um dia baterás feliz outra vez, confiante de que tudo será o mundo cor-de-rosa que nas histórias infantis é pintado, porque não vale a pena pensar nos batimentos tristes e infelizes, mas sim pegarmos nos felizes e torná-los únicos e inesquecíveis.

domingo, 2 de maio de 2010

sábado, 1 de maio de 2010

...

Sinto as lágrimas virem, devagar, batem á porta de mansinho e pedem para sair. Um aperto no coração faz-me pensar. Em quê? Não sei, mas penso, um simples pensar sem pensar, sem imaginar, sem recordar, somente um pensar no vazio infinito, no dia em que vou acordar e sonhar.
Ouço o som suave e ao mesmo tempo cortante do gelo a partir, do sol a nascer, da criança a correr e do sonho a fluir.
Não sei que diga, na realidade nem sei quem sou, mas afinal, de que me vale saber quem sou? Sou eu, apenas eu e mais ninguém, escrevo, sim, para me libertar deste mundo surdo e cego que aos poucos nos quer levar com ele para um vazio triste e sombrio.
Um véu de ignorância cobre-nos docemente, e docemente também nós o aceitamos como nosso, mas ele não é nosso, rompamo-lo, queimemo-lo, estraguemo-lo, até que consigamos ver as nuvens pairar no ar e o cheiro a relva molhada nos invada a alma cansada e desgastada duma vida sem fado, duma via sem nada.
Pousemos o búzio sobre o ouvido e ouçamos o tocar das ondas frescas na areia fina, ouçamos o som surdo do luar, vistamos as mais belas cores e corramos, como se não houvesse amanha.
Temos que sentir o brotar das lágrimas no rosto quente, o sorriso rasgado, a vida vivida, o sonho sonhado, e aí saberemos quem nós somos, quem nós fomos, e quem nós seremos.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

E se de repente...

E se de repente eu fosse tu e tu fosses eu? E se de repente as árvores falassem e o mundo, também de repente deixasse de existir? Podia haver um colapso, um estrondo, um simples silêncio avassalador, e de repente nada mais que o vazio e nada menos que a falta de vida existissem numa existência sem sentido, numa terra sem alma, sem corpo, sem nada.
Uma lágrima deixaria de ser uma gota de água salgada, quente e fofa que nos aconchega as faces e faz explodir o coração quando mais nada há para além da tristeza, ou do seu oposto.
O sorriso desapareceria na cara das crianças afogueadas pelo calor das camisolas azuis e vermelhas, que as mães, apesar do calor infernal os obrigam a vestir. Nas expressões soltas daqueles que com alegria ou com tristeza sorriem só por sorrir, para esconder algo mais importante que o sorriso, ou naqueles que timidamente sorriem só para não terem de falar. Ou ainda aquele sorrir de boca aberta virada para o mundo depois de uma queda completamente inesperada ou da piada dita na altura certa.
Não haveria a brisa primaveril a tocar-nos ao de leve pela manhã nem o cheiro a terra molhada após uma chuva de Inverno.
O sol não nasceria, não adormeceria por entre as montanhas, que, ao longe, o acolhem como uma cama quente e fofa, nem o tom crepuscular de um dia passado, uma esperança de ser feliz.
Simplesmente o chilrear dos gramofones, o bater das folhas caídas sobre a ténue fronteira do lago límpido e carregado de vida não existiriam, seriam meras memórias, ou talvez nem isso.
Aquele toque intenso dos jovens namorados, o beijo que trás uma mensagem de juízo da mãe ou até mesmo o abraço sentido de um amigo não passariam de meros momentos que deixariam de estar presentes.
A vida sem cor não tem piada, afinal quem quer uma viver a preto e branco? Tudo o que sobraria seria a saudade, se é que num Universo sem o nosso mundo as nossas almas existiriam para sentir a saudade de algo, ou de apenas nada.
Visto não sabermos o amanhã, vivamos o presente como se fosse o último segundo, minuto, das nossas vidas, porque o fim do mundo pode chegar com a mesma rapidez com que este se formou.

domingo, 11 de abril de 2010

o tempo não pára...

Um dia sonhei que tu eras real, um dia sonhei que tu não me abandonarias, que ficarias pertinho até o sol tocar os cumes gélidos das montanhas, mas isso não aconteceu. O sonho era apenas um sonho, um permanente vazio, um puzzle incompleto.
Esta noite tu abraçaste-me, ajudaste-me a escolher o que vestir para o encontro com o rapaz giro lá da escola, deste-me um beijo de boa noite e aconchegaste-me os lençóis, o único senão é que tudo isto foi apenas mais um sonho, um dos muitos desejos de te ter a meu lado, de me veres crescer aos poucos. Mas tu fugiste, não quiseste ver o meu teatro da primária, não me ensinaste a andar de bicicleta, não me viste a sorrir quando toquei os primeiros acordes na guitarra, não me limpaste as lágrimas quando discuti com as minhas amigas.
Simplesmente, não estiveste lá, nem nos bons nem nos maus momentos, porque preferiste estar num mundo aparte, no qual ninguém te fizesse perguntas difíceis sobre a vida.
Quando olhares para trás, se é que algum dia o farás, verás o que perdeste, mas aí será tarde demais para o recuperares, porque a vida não espera pelas tuas decisões mal tomadas, pelas palavras mal ditas.
O tempo passa , eu não vou esperar que tu acordes só para me veres dar os primeiros passos na vida.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cientistas da Vida

Hoje conheci um cientista. Não daqueles de cabelo desgrenhado e ar de louco, mas sim daqueles que acordam todos os dias ao ouvirem o despertador, que se vestem com roupas normais, e como pessoas normais percorrem a cidade, a vila, a aldeia, alguns como zombies ainda esgotados pelo dia anterior, outros com uma energia do tamanho do mundo, que percorrem as ruas a saltar e a correr, cantarolando a música dos desenhos animados. E assim esses cientistas vão para os seus trabalhos, as suas escolas. Sim, esses são os verdadeiros cientistas.
Cientista é aquele que com um simples sorriso transforma a vida numa festa, aquele que descobre o mundo a cada segundo que passa, aquele que todos os dias, na sua rotina, interfere na vida dos outros.
Ok, existem cientistas e cientistas, mas mesmo assim, não vos parece que tem mais mérito a pessoa que ajuda o seu amigo do que aquele que descobriu a lei da gravidade? Muitos diriam que ajudar quem nos rodeia não é ciência, mas parecendo que não, a ciência da vida é das mais difíceis de aprender.
Conseguimos viver sem saber as leis da física? Da astronomia? Da química? E muitas mais??? Podemos, obviamente que sim, se não pudéssemos como é que as pessoas que viveram antes dessas ciências serem descobertas viveriam? Mas, conseguiríamos nós viver sem a arte do saber, do pensar, do ver, do amar? Por favor, não digam que poderíamos, porque se isso fosse possível deixaríamos de ser seres humanos e passaríamos a ser máquinas sem sentimentos e vida própria.
Nós somos cientistas, não temos o prémio Nobel, não aparecemos nos livros escolares nem nas enciclopédias, mas de que é que isso nos serve? De nada. Porque a nossa ciência está escrita no livro da vida e o nosso prémio é aquele beijo doce de boa noite ou aquele sorriso matinal.
Somos os cientistas da vida e isso chega para sermos felizes.

domingo, 14 de março de 2010

A Vida são dois dias...

Há quem diga que a vida não presta, há quem diga que a vida são dois dias, há simplesmente quem diga que a vida é um sonho, mas afinal, quem sabe o que é a vida na realidade?
Todos sabemos como nascemos, como crescemos, como morremos, então e o resto?
O resto é um poço infinito de pontos de interrogação, pensamentos, sonhos e muitas reticências.
Enquanto uns estão sentadinhos nos sofás a ver os filmes de sábado á tarde, outros estão a lutar pela vida, se é que isso existe, debaixo de escombros, sem casa, sem família, sem nada nem ninguém, é isso a que chamam vida? A viver uma tristeza sem fim, sozinho, uma vida de memórias passadas e guerras futuras? Sim, para alguns, isso é a vida, porque nem sempre se pode ter um beijo de boa noite, um aconchego dos lençóis, uma palavra de encorajamento. Alguns, a única coisa que têm são a roupa no corpo e um buraco no sítio do coração, porque quando perderam tudo o que de importante existia, o amor e a alma também se foi, partiu sem dizer um adeus e nunca mais voltou.
Na realidade, qual é afinal a lógica da vida? Qual é a lógica de uns terem tudo e outros não terem nada, não deveríamos ser todos iguais? Uns podem dizer que tem de existir uma hierarquia, uns têm de mandar nos outros para que haja organização, mas não é essa a realidade, não perguntem então qual é essa realidade, não sei responder.
Por mais motivos que tenhamos para dizer que a vida é um simples passo num Universo, um simples ponto final num livro, um desperdício de tempo, isso não é a pura verdade.
A vida vale a pena ser vivida, senão fosse assim, acreditem, nós não nos deambularíamos neste mundo que desde cedo nos acolheu como seu mestre. Se a vida não fosse importante não sentiríamos felicidade ao ver a primeira flor de Primavera, não nos iríamos esconder entre os cobertores nas noites de trovoada, não choraríamos numa despedida, não sorriríamos num reencontro, porque a vida é isso mesmo, um monte de altos e baixos, uns mais fundos que outros, mas todos fazem parte da vida, porque sem esse carrossel em constante movimento nós não daríamos valor áqueles momentos especiais que ficam gravados na nossa memória para sempre, não sentiríamos a dor de perder alguém, de simplesmente viver a vida à nossa maneira.
A vida são dois dias e um já passou.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Arco-Íris a preto e branco

A vida perde-se em meras palavras, simples segundos a levam sem nunca mais a devolver, e nós, sem nos apercebermos, perdemos o que de bom existe nela, aquilo que na realidade nos faz sentir vivos.
Se o mundo acabasse amanhã eu não teria tido tempo de me alegrar do que fiz, mas sim de me entristecer por tudo o que não fiz, o que não disse, o que na infinidade de pensamentos não consegui pensar.
Quero ver o nascer do sol a ouvir o bater das ondas, quero sentir o cheiro a menta do chá matinal.
Quero perder as lágrimas de mar e os amuos do deserto. Sinto que tem de haver uma mudança, uma ínfima mudança para colorir o meu mundinho em tempos cor-de-rosa, nas últimas semanas preto e branco.
O sol bate-me na cara mas o frio congela-me os sentimentos, sinto-me perdida, entristecida e pobre, pobre daquela alegria, do sorriso nos lábios, do bater acelarado do coração.
A vida prega partidas, e nós somente temos de acordar para elas, o problema é que por vezes isso se torna mais difícil do que parece e nós simplesmente nos afundamos nessas partidas sonolentas e ilusórias.
Os sonhos voltam, preenchem-me e simplesmente volto á vida, algo simples e eficaz, pois, o sonho comanda a vida, e isso torna tudo num feliz arco-íris de cores alucinantemente alegres e divertidas.
Um sorriso docemente nascido no meu rosto fazem-me sentir viva novamente.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Bailarina ao sol

O sol batia-lhe nas faces pálidas, que por detrás da janela se assemelhavam a flocos de neve.
Os lábios rubros transbordavam saudades de algo, e os olhos, esses mostravam solidão.
O olhar da menina direccionava-se para o vazio, aquele que cativa qualquer um quando não há mais lugar nenhum para investigar.
Era uma pessoa bela, sem dúvida que era. Os cabelos loiros atados num laço vermelho, a pele branca como o gelo, as maçãs do rosto salientes, olhos como esmeraldas e lábios rubros, bonitos e vistosos. Um corpo esguio, de meter inveja. Vestido tinha um tutu cor-de-rosa. O seu ar de mulher com um toque de infância faziam-na brilhar.
De repente, Olga virou-se, e na janela passou apenas a ser visível, um vazio do tamanho de um buraco negro.
Olga vivia num casarão abandonado desde que ficou sozinha à dois anos atrás.
Muitos diziam que ela enlouquecera, mas não era verdade. Ela somente se sentia só e abandonada.
Numa das paredes havia um espelho com dois metros de altura, mas muitos pedaços espalhados no chão sujo lhe faltavam.
Olga, de rompante, olhou-se ao espelho. Uma parte que faltava no espelho correspondia com a sua cara, logo, ela não a conseguia ver.
Num sentimento de fúria, de tristeza, a menina agarra num pedaço do espelho do chão, e com toda a força, parte o que restava do espelho em tempos digno de grande importância.
Gotas rubras corriam pelas suas mãos de fada e pintavam o espelho como se este fosse uma tela.
Os olhos de Olga transbordavam raiva, raiva de ser quem era, de estar onde estava, de fazer o que fazia.
As suas vestes ficaram sujas daquele sangue maldoso que teimou em sair daquele corpo triste e furioso. O silêncio pairava naquele ar gélido, apenas interrompido pelos gritos daquela que habitava a casa.
O sol, esse já não queria atravessar as janelas estilhaçadas e as cortinas rasgadas.
Esse preferia ser apenas um espectador daquele espectáculo quase mudo, quase morto.
Olga tinha umas sapatilhas de ballet, umas belíssimas sapatilhas de ballet, bastante gastas, mas também com uma extensa história para contar.
Olga fora em tempos uma menina de sorte, uma menina como todas invejam. Bailarina, prestigiada, mas um dia, a felicidade transformou-se em tristeza. Os pais tiveram um acidente á ida para um dos seus espectáculos, e o gelo não os deixou contar a sua história. Desde aí, Olga vive sufocada entre as quatro paredes daquele casarão degradante.
Como vêm, as pequenas sapatilhas têm uma importante história.
A menina perdeu as forças, e caiu no chão sem fôlego.
O coração tinha-lhe saltado da órbita, as veias tinham sido esquartejadas por aquela dor alucinantemente forte, mas a menina sobrevivera.
Não foi o bater acelarado do coração, não foi o parar da respiração e muito menos o sangue a fluir das suas mãos esguias que a impediram de pensar.
Olga pensou, pensou, pensou, até mais nada ter para pensar.
A menina mulher queria os seus pais, aqueles seres maravilhosos que ela tanto admirava.
De um segundo para o outro, Olga estava de pé, junto á parede bege. Soltou o cabelo da cor do sol, soltou as amarras da cor do vento, e começou a correr, um correr alegre, de criança, até um pouco atabalhoado para uma bailarina.
Ia na direcção da janela, a janela que não ia dar a lado nenhum, ou até iria. O sol tocava as suas faces agora rosadas. Os olhos estavam vivos, transpareciam beleza e felicidade.
De repente, ouviu-se o estilhaçar da janela, um grito mudo saído de um sorriso do tamanho do mundo.
Um clarão acolheu-a, ela estava livre outra vez.
Os fantasmas perdeream-se na correria infernal, Olga voltara a ser a criança alegre e divertida
Do clarão viam-se olhares, olhares daqueles que a acolhiam, eram os seus pais.
Quem via aquele fenómeno apenas conseguia visualizar um vulto branco com manchas vermelhas e uma estrela da cor do sol.
Olga tinha saltado da janela, Olga tinha-se suicidado.
A menina simplesmente seguiu o seu sonho, o sonho de estar novamente com aqueles que a amavam e deixar para trás aquela tristeza e raiva que a acompanhava já há dois anos.
Ao morrer, Olga voltou á vida.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009



"Olhe para tudo como se fosse a primeira ou última vez. Então seu tempo na Terra será repleto de glória."
( Betty Smith )

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Strangers in the night

Passeio sozinha por baixo do sol cortante de Inverno. As folhas cobrem o chão tornando o ambiente uma mistura de cores de Outono. Os ramos despidos das árvores fazem sons ocos. A rua encontra-se repleta de pessoas, não perguntem como eram, que caras tinham, felizes, tristes, não vos sei dizer, só sei que todos pareciam meros borrões de tinta negra que apenas distorciam a minha visão. Eu sei que o calor humano me rodeia, mas a única coisa que sinto é um frio que me inunda, fazendo-me sentir como um cubo de gelo.
Desisto de fazer a caminhada sem fim e sem sentido, e aí, somente me sento num pequeno banco de madeira com a tinta vermelha a descascar devido á tão longa idade.
Simplesmente deixei as perguntas surgir na minha mente, mesmo não tendo resposta.
De repente uma impaciente mistura de palavras queria surgir nos meus pensamentos, deixando-me completamente atordoada. Mas com uma certa vontade de lhes responder eu consegui organizá-las.
Porque é que foste assim? Porque me ignoras nesse teu modo tão peculiar e pensas que eu não existo? Essa tua rispidez dá-me vontade de por fim á tua vida, e por vezes á minha também.
Já fomos estranhos na noite e amigos á luz do sol, já soubemos tudo um do outro, mas agora, tu simplesmente impuseste uma barreira. Simplesmente a magia perdeu-se, e esta levou a amizade consigo.
Sabes, desisti de a recuperar, tu já foste especial, sem dúvida que foste, mas agora és uma simples sombra, uma nota numa música, uma letra num livro, és aquilo que foste mas sem o brilho, sem a limpidez das palavras, a rispidez no olhar.
Agora entendo, sempre fomos os estranhos na noite, simplesmente os raios de sol iluminaram um pouco as nossas palavras, os nossos pensamentos.
Agora sim, agora já tenho uma resposta para todas as perguntas.
Levanto-me do banco vermelho com um sorriso nos lábios e sinto que a verdade caiu sobre mim, apesar de me sentir mais leve do que uma pena.
Dessa forma atravesso o mar de gente, mas agora estas já não são meros borrões de tinta negra, mas sim pessoas, como eu, uns sorriem, outros choram, outros simplesmente não têm expressão, são estátuas com movimento.
Os pássaros voam, o sol brilha e reflecte-se nas gotas de gelo do lago, tudo é belo, tubo tem sentido, incluindo os meus pensamentos.

domingo, 27 de setembro de 2009

infância nunca perdida

Acordo sobressaltada após um pesadelo que parecia ser interminavelmente real e doloroso.
Foste tu outra vez, atormentas-me dia e noite, sem um segundo para descansar, um mero segundo para me deixares respirar fugazmente e pensar por mim própria o porque da tua existência em mim.
Olho o relógio, seis da manhã, somente cinco horas passaram desde que tentei livrar-me de ti, e mesmo assim, é impossível.
Estragas os meus sonhos encantados em que tudo em tempos foi cor-de-rosa, e agora é negro, as flores murcharam, as fontes secaram, e as tuas imagens reavivaram-se na minha mente, no meu coração.
Ainda hoje relembro o dia em que te conheci, de mochilinha às costas e mini-saia xadrez.
Apenas éramos duas crianças, pequenos botões de rosa em tão grande roseiral, mas mesmo assim, já na tua expressão consegui ver que dali sairia uma grande amizade.
Os teus lábios rosa pálido apresentando um traço fino e delicado, aqueles grandes e penetrantes olhos castanhos tão bem desenhados num rosto redondinho e tipicamente infantil transpareciam tudo o que de bom há na vida, alegria, timidez e vivacidade, apesar da falta do sorriso que mais tarde vim a descobrir.
Alguns dias depois consegui ouvir a tua voz até aí apagada no meio de uma tão grande confusão de sons e movimentos.
“Olá” foi a primeira coisa que me disseste, e logo aí eu fiquei encantada com tão doce voz.
A partir daí nada mais nos interessou. Passamos a viver como que em cápsulas, em que o céu era sempre azul refrescante, o sol brilhava dias a fio e nada mais que tons alegres prevaleciam nesse mundinho tão á parte.
Todas as pessoas eram belas e amarelas como as flores que em nós existiam, e em nada havia mal, ódio, tristeza ou solidão.
Um dia, tu decidis-te abrir o portãozinho de ouro e aí, em contacto com o exterior, o nosso pequeno mundo deixou de existir. As flores murcharam, as nuvens chegaram carregadas de ódio e arrependimento e o sol partiu, sem nunca mais voltar. O ar tornou-se ácido corroendo todas as nossas boas memórias de que aquilo, fora um dia um mundo feliz.
Tu sais-te, não aguentas-te, talvez a idade que se aproximava não nos deixasse outra hipótese que não sair daquela incubadora da felicidade que nos alimentava as esperanças de um dia o mundo inteiro ser como o nosso, um local puro e belo.
Um passo bastou para tudo desabar sobre ti, sobre nós.
A estrada encontrava-se vazia, um longo caminho negro apoiava o nosso peso enquanto o ar abafado nos fazia ficar pálidas e enjoadas.
Eu, ainda aos saltinhos, como em criança, atravessei essa estrada rapidamente. Mas tu não, tu já não eras a menina que andava sempre aos saltinhos de um lado para o outro, e por isso, a tua travessia foi mais lenta, penosa.
Sabes, a criança que eu era salvou-me daquele trágico autocarro, mas a tua não, essa desaparecera mal abris-te a porta e a deixas-te partir, fugir como um pássaro que foge das mãos mal elas se abrem e voa pelo céu azul, livre.
Não aguentas-te, e dessa forma, o resto do que ainda existia em ti desapareceu após o choque entre vós, o autocarro e tu.
Ali ficas-te, fora do teu mundo, fora do teu corpo.
A tua criança teria te salvo, mas tu não quiseste, preferis-te ser a adultazinha de palmo e meio com um sonho despedaçado e um mundo perdido.
Todos os dias te imagino a saltitares sobre os traços da passadeira, ao meu lado, e aí, o autocarro passa por trás de nós, apenas nos tocando uma brisa gélida e cortante, nada mais.
Vejo-te a todos os segundos, as mesmas imagens ainda ma atormentam noite e dia. A minha vida ainda depende da tua. Agora, duas crianças vivem em mim, e o nosso mundo foi reconstruído, o sol voltou e ilumina-me como fez em tempos também contigo.
Os teus passos lentos fizeram voltar a tua alegria, mas para outro corpo, o daquela que a todos os momentos te acompanhou.
Habitamos as duas um só corpo, uma só vida, um só mundo, porque quando também eu desaparecer, podemos voltar a ser dois seres distintos mas únicos que poderão usufruir de um mundo em conjunto.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

puzzle perdido

Olho as ranhuras de um tecto em tempos branco, agora bege.
Sinto o meu corpo frágil dividir-se em meros fragmentos de células, e estes voam por todo o quarto
Levanto a alma desfeita, perdida e magoada e dirijo-a até ao espelho. Somente vejo um corpo estranho, um puzzle incompleto, um ser infeliz ao qual faltam as lembranças alegres e coloridas, as peças amarelas e vermelhas, aquelas que completam o puzzle há muito incompleto.
O meu corpo cai redondo no chão ao ver aquela visão á muito sabida, mas um pouco desconhecida.
Sinto o peito arder, os olhos chorar, e as peças cinzentas do puzzle a desfazerem-se, formando uma pequena camada de cinzas no chão pálido e gasto de madeira.
Penso, e repenso os infinitos motivos de tão grande degradação.
Tentei esquecer aquele olhar firme, doce, os tais olhos cor de mel, doces e por vezes sem qualquer sinal de vida. Tentei esquecer as faces rosadas depois das corridas matinais, os lábios rubros e belos.
A estatura mediana, a pele com um travo a menta, os lábios com sabor a chocolate, ainda me atormentam as noites e os dias, até me levarem á loucura.
O fogo ainda arde no meu coração, a paixão ainda paira no ar que respiro.
Olho em meu redor, ainda vejo o seu andar descansado e lento á minha frente, ainda sinto o seu corpo tocar o meu.
O saxofone permanece encostado ao sofá, consigo ouvir a sua bela melodia na minha mente.
As roupas continuam espalhadas pela cama ainda quente, e eu penso, ele ainda cá está.
Vagueia pela minha mente não me deixando esquece-lo.
Só há uma verdade, já não me conheço, já não o conheço.
Ele partiu de mala na mão e buraco no peito, e nunca mais voltou. Somente lhe disse “ nunca me esqueças” e ele nada respondeu.
Ainda hoje o vejo a descer as escadas da entrada, o seu ar triste e desconcertado de alguém que ainda ama, mas sem fogo, somente com cinzas.
Nada mais há para dizer, para além de tudo isto.
Desisto, a dor não passa, a esperança não cessa.
Sinto o puzzle refazer-se, as peças juntam-se, unem-se. A imagem não é definida, somente uma doce mistura de cores, mas já é um bom começo.
Ainda espero vê-lo novamente, mas já não endoideço por isso.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

guilt

Sou a culpada.
Sou a culpada dos meus erros, dos meus receios, da minha insegurança, e mesmo assim sobrevivo e vivo para o contar.
Sinto um sentimento há muito conhecido percorrer as minhas veias finas e delicadas, que se rompem cada vez que ele passa parecendo um furacão levando tudo á sua frente.
Sinto o corpo perder-se na escuridão do meu ser, naquele culpado inato que corrói a sua própria alma.
Choro, porquê? Porque vejo toda a minha vida dispersar-se em fragmentos, que se perdem neste mundo tão grande.
Nada mais que uma prisioneira de uma vida triste nada menos que a culpada dessa vida.
A morte, que passo tão curto para uns e para outros tão grande. Sim, divago, porque nada melhor do que não dar certezas do que se diz quando de nada se tem certeza.
O choro abafa o espaço vago da alma alegre à muito perdida, e dessa forma, também eu me perco, também eu preciso de um mapa da vida, mas nunca o encontro.
Porque quem perde a alegria de viver, raramente a encontra, porque quem aceita a tristeza de ânimo leve raramente a consegue descolar do ser.
Desisto, a vida nunca me compreenderá, nem eu a ela. Preciso de muita coisa, mas a principal é livrar-me deste aperto no peito, deste nó na garganta que me consomem todos os dias e noites a fio, que me matam lentamente sem eu dar por isso, ate chegar ao estado final, aquele ao qual ninguém foge.
Quero deixar tudo isto ir, quero sentir-me viva, quero ganhar a cor encarnada nos lábios alegremente desenhados que há muito perderam o sorriso brilhante. quero o palpitar vivaço do coração, quero os pensamentos apaixonados que fazem a minha visão tornar-se rosa, quero viver e ser feliz.
Mas nada do que quero vem, retoma o seu lugar neste corpo morto, até que eu deixe partir a morte de dentro de mim e deixe retomar a vida no se lugar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Doce ilusão

Sento-me no topo do prédio. Penso, o que estou eu aqui a fazer?
Foi um dia longo, díficil, monótono e aborrecido, mas nada ao que eu não estivesse habituada, tem de haver de tudo, senão não damos valor ao que é realmente bom, ao que nos dificulta adormecer devido a tão grande agitação, que nos entra nos sonhos sem pedir por favor e nos enfeitiça até ao final do dia seguinte.
Sim, é assim que eu me sinto quando algo corre bem, alegremente e de uma forma feliz. Como muitos dizem, um sorriso vale mais que mil palavras, então, porque não espalhar sorrisos e tornarmo-nos alegres palhaços sem os fatos coloridos e os narizes vermelhos?
Quando acordo de manha e, ao olhar para o espelho vejo alguém com um sorriso nos lábios, o cabelo despenteado e a cara pálida, penso, realmente, ser feliz é a melhor coisa do mundo.
Nesses dias, o sol brilha com um tom mais amarelado e quente, a leve brisa quente e fofa parece fazer-me festas quando toca o meu corpo, o chão que piso aparenta ser fofo e aveludado, todo o meu mundo torna-se um pouco como um parque de diversões. Todos correm, todos riem, todos se divertem. Os pássaros assemelham-se a gomas gigantes voadoras e as pequenas nuvens têm um travo a algodão doce. Nesses dias, tudo se torna tão infantil, reluzente e feliz que nada o pode acabar.
Há dias bons, …há dias maus, aqueles em que o mundo aparenta desabar sobre nós, em que os pés tremem sobre umas meras areias que em rápidos momentos podem escapar-me dos pés e deixar-me cair num abismo. Os raios de sol não têm força para trespassar as espessas nuvens negras que me atormentam.
Sem dúvida, há dias de tudo, dias de paixão, dias de desgosto, dias de felicidade e alegria, dias de tristeza e escuridão,…
Este, foi um dia de nada, um dia em que nada tem significado, em que tudo parece ser o que não é.
Os raios de sol tocam-me os cabelos sedosos e brilhantes, os olhos tornam-se espelhos e mostram aquilo que vejo, o corpo cansado quase desaparece na cadeira que trouxe para cima. Mas acima de tudo, os pensamentos voam como pássaros, vão para longe e voltam com novas ideias, novas imagens, novas palavras.
Olho em frente, vejo um mundo cheio de tudo, vejo algo que posso alcaço esticando a mão, mas que rapidamente me escorre pelos dedos esguios e frios.
Nada é o que realmente penso, nem o que realmente sinto, mas não há problema nenhum se viver num pouco de ilusão.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Manto Negro

Sinto um sopro frio, gélido, que trespassa todo o meu ser, a minha alma, o meu corpo tentam tornar-se simples, insignificantes e robustos cubos de gelo, mas eu não o permito.
Já passei por muito, e já a derrotei vezes sem conta, mas também, já tantos se ficaram nos meus braços sem eu a sentir, sem eu a ver, sem eu cheirar aquele odor seco e fresco, doce e amargo, simples e intenso, aquele odor que me faz arder as narinas cada vez que o inalo.
Sim, é verdade, já nos encontramos bastantes vezes, mas nunca nenhuma dessas vezes o seu intuito era levar-me, mas agora é, agora ela quer tirar-me a vida.
Sinto o seu toque suave no meu braço arrepiado, o meu sangue tenta afastar-se dela parecendo concentrar-se num só ponto do meu corpo, um local que penso ela não conseguir chegar.
Agora sim, sinto-a, vejo-a, é tão diferente do que o que pensava. Uma cara humana e afável encontra-se no meio de um tecido preto aveludado que me acaricia as pernas. Toda ela é humana, sem foices nem nenhum objecto cortante, apenas é a morte.
Nada mais que isso, mas muito mais do que o que devia.
Sinto as palavras a esvaírem-se em letras soltas, sinto a vida tornar-se em simples memórias e as memórias em meras fotografias.
A morte, aquela pessoa de capa preta, cabelo cor de bronze, olhos pretos e pele branca como a pele acompanha cada um destes meus passos, como se fosse sempre assim, tornando-se monótono e entediante.
A minha vida terminou, depois de perder tantos nas minhas mãos, chegou a altura de ser eu a perder-me nas mãos de alguém. Não tenho pena disso, vivi o que tinha a viver e nada mais que isso, fiz o que devia ter feito, senti o que devia ter sentido, e não me arrependo disso, não me arrependo de nada, menos de poder dizer a todos que a morte é algo tão belo, tão simples, que nos faz querer dar-lhe a nossa alma, faz-nos querer ir sem qualquer medo ou receio.
Ninguém a vê, mas ela existe, não pede permissão para abrir a porta, mas entra sem qualquer dificuldade, sem ninguém para a debater.
Depois de ela aparecer, depois de saber o meu destino, somente lhe pedi uns minutos para escrever uma pequena carta, algo que eu queria escrever há muito, mas que não tivera ainda força para isso, não que seja algo complicado, mas sim algo estranho, parecia que existia uma barreira que me impedia de o escrever, de expressa-lo para uma folha.
Esta concedeu-me este último pedido, esperando ansiosamente para que eu terminasse.
Então, aqui vai:


Porto, 27 de Agosto de 2107

Querida Amiga,

Olho através da transparência suja da janela do meu quarto, o sol brilha radiante e contente, este não pressente a minha morte, mas eu sei que ela se avizinha, nós sabemos não é? Eu sei que sim.
Agora que penso, não é o sol que interessa, nem o sol, nem nada interessa, para além de nós, aquelas que antes eram desconhecidas, mas que agora fazem parte uma da outra.
A minha hora chegou, tudo o que sinto é insensível mas doloroso.
Só neste momento é que percebo o que a minha vida foi, e o que teria sido sem ti. Foste os meus pilares durante tantos anos, mas nunca enfraqueces-te, não houve uma só tempestade que te fragilizasse, não houve um raio de sol, por mais forte que fosse, que te conseguisse trespassar. Foste, e és, aquela que eu gostava de ser, mas que não conseguira.
Não me arrependo de o dizer, porque foi a verdade, durante dias a fio eu queria ser como tu, simpática, sociável, bondosa, mas não sei, não consegui. Daí nos dar-mos tão bem, daí nos completarmos uma á outra, formando um puzzle com as peças completas, mas sem uma imagem definida.
Quando, por algum motivo, havia uma zanga entre nós, eu sofria, sofria tanto, mas só quando me apercebi da força desse sofrimento é que reparei o quanto precisava de ti, o quanto tu me fazias falta, o quanto sabia bem ouvir as tuas palavras melodiosas a pairar nos meus ouvidos, o teu cheiro a perfume de franboesa a amaciar o meu nariz, o teu toque doce e por vezes atrapalhado em contacto com a minha pele.
Por muitos momentos senti falta de tudo isto e bastante mais. A pessoa que tu és não dá para descrever, és a pessoa indescritível que eu gostaria de ser mas não fui, és aquela que daria uma colecção inteira e mais algumas de livros da patrícia, mas que o seu significado seria incontávelmente maior.
Bem, está dito, agora sim, estou preparada para partir, não que não queira dizer mais um “adeus”, mais um “até logo”, mais um “és a melhor amiga de todo o sempre”, mas sei que estas pequenas palavras não conseguem acompanhar o teu verdadeiro eu que a maioria desconhece.
Portanto, fica somente um simples “até já”, pois eu estarei a ver-te, a guiar-te, a fazer aquilo que não tive tempo de fazer enquanto viva.

Joana
Agora sim, estou preparada para partir.
Dessa forma, a Morte soprou novamente, e rapidamente aquele ar gélido fez a minha alma saltar e a apanhou. Sim, era eu, já não era um corpo, mas somente uma alma que vai ao colo da Morte.
Passa-mos pela janela, senti um calafrio, se é que eu ainda sentia alguma coisa.
Assim seguimos o nosso fado, para mim desconhecido, para ela conhecido como a palma das suas mãos.
Senti-me segura, frágil mas forte, intocável, trespassável, invisível.
Ainda que morta, eu sentia, sentia todas as emoções, todas as memórias, somente tinha perdido o meu corpo, mas tudo permanecia igual, era a mesma pessoa, antes viva, agora morta.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

a tristeza da noite

A noite transforma-se num cenário decadente e horripilante.
A memória que fracassara tentar esquecer tornam a queimar-me o corpo, tornando-se assim um pedaço de carvão ardente envolto em cinzas quentes.
O ardor faz-me dar gritos mudos, enquanto que as lágrimas não cessam de embaciar os meus olhos e tentar apagar o fogo que me corrói.
Continuo a olhar a noite sem a ver.
As memórias ocupam todo o meu ser, parecendo estar a ver um filme que eu queria não ser meu.
Quando este chegou ao fim caio no chão. As forças foram gastas durante aqueles escassos momentos de terror.
Olho em redor, estou sozinha. Somente as estrelas cintilantes e o barulho da natureza intocável me tentam reconfortar enquanto o suor escorre pelo meu corpo e juntamente com o mar que transborda dos meus olhos a minha roupa se encharcava.
Passados alguns minutos, consigo levantar-me e ver o céu.
O que antes me aparentava ser horrível, terrível, mortífero, agora demonstra-se algo meigo, acolhedor e talvez tímido.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

reflexos pálidos


se...-parte 5

A semana que se seguiu á aparição de Mariana na minha vida sem cor custou um pouco a passar.
Todos os dias a mesma rotina, sempre tudo igual sem nada de novo, de diferente.
Apenas uma coisa me obrigava a acordar daquele sono sem fim, pesado, repleto de sonhos escuros e tristes, tinha de verificar se na caixa de correio constava algo de diferente, algo de Mariana.
Ao sétimo dia já o desespero era de tal modo grande que travaria cento e uma batalhas para receber noticias daquela bela menina. Somente me questionava se algo de mau lhe tinha acontecido, mas rapidamente tentava retirar esses pensamentos deprimentes da minha confusa cabeça.
Ao acordar no dia seguinte tive o pressentimento de que iria obter notícias da caracóis dourados.
Sem pensar, saltei da cama fofa e quente, peguei nas chaves e saí.
Ao chamar o elevador cruzei-me com o vizinho da frente, que me olhou com um ar espantado. Só aí me lembrei que me encontrava tal e qual como tinha acordado.
Entramos os dois no elevador, e para meu grande constrangimento ele perguntou se eu estava a pensar ir trabalhar naqueles preparos, num tom de puro gozo maldoso.
Olhei-o com relutância mas sem resposta, e, quando chegamos ao rés-do-chão eu abri a porta do elevador e saí com tão grande indelicadeza e rapidez que só consegui ouvir o senhor expressar um ‘AU’ dorido.
Foi bem feito!
Corri em direcção á caixa do correio e com grande rapidez a abri e retirei-lhe o seu conteúdo.
Era um envelope pequeno, de um tom branco pálido e com um pequeno número de rugas.
Sim, era o que eu esperava desde o momento em que a vi partir, era uma carta de Mariana.
A coragem e alegria perderam-se ao pensar na quantidade de coisas que poderiam estar escritas naquele importante pedaço de papel amarrotado e envelhecido.
Subi agora sozinha para o apartamento e guardei a carta na carteira, com esperança de a poder ler durante o trabalho. Agora não me restava nem tempo nem coragem para o fazer, talvez mais tarde, no trabalho.

se... - parte 4

Quando, de manhã, senti a luz a entrar na sala, atravessando os filamentos das cortinas rosa claro senti algo muito quente na minha face, era algo quente e fofo, era um toque simples e carinhoso, como que o toque do cetim. Com pouca coragem para virar os meus espelhos para o mundo, abri-os, a aí vi a menina mais bela que já vira em toda a minha vida.
Já antes a achava bonita, mas, a sua beleza pareceu aumentar a olhos vistos durante o sono.
Ela olhava-me com aqueles olhos grandes, cor de cinza, rodeados por longas pestanas loiras. O seu cabelo loiro estava ainda mais brilhante e parecia não ter um que fosse fora do sítio, nem mesmo devido ao sono. A pele continuava pálida e frágil mas sempre bela e quase intocável.
Esta, vendo a minha admiração por ela, apressou-se logo a dizer:
- Bom dia! Eu sou a Mariana, penso que ainda não tivemos uma única oportunidade para nos apresentarmos. Peço desculpa pelo incómodo. Julgo eu que me quer devolver ao jardim novamente, certo? – a sua expressão dura e triste, parecia sussurrar ao meu ouvido, dizendo – por favor, não me leves novamente para aquele local, não agora, fica comigo, dá-me carinho, por favor! .
Conseguindo ler aquilo na sua expressão, nos seus olhos, nas entre linhas das suas palavras, tudo o que eu consegui foi um silêncio; nada mais que isso.
Mariana, vendo-me de tal forma calada e pensativa, apressou-se a dizer que não era necessário preocupar-me com ela, somente a teria de levar para o local de onde a tirara na tarde do dia anterior.
A sua expressão não parecia ser de alguém de dez anos, mas sim de alguém com a minha idade, apesar de que alguns nem aos cem a conseguem ter. A independência existente nas suas palavras, demonstrava que tudo o que ela dizia significava o contrário do que ela queria e necessitava.
Rapidamente, tentei quebrar o silêncio que impusera poucos segundos antes:
- Bom dia Mariana! Eu sou a Teresa. E que tal se tomássemos o pequeno-almoço juntas?
Mariana rapidamente disse, já com uma expressão mais pacífica no rosto:
- Concerteza! É necessário ajudar em alguma coisa? Realmente, a fome já aperta um pouco.
De um salto, saí da cozinha e pus-me a preparar tudo o que achava ser necessário para um bom pequeno-almoço.
No final, a mesa estava repleta de comida, desde torradas, compotas, leite, café, cereais, todo e mais algum tipo de fruta, etc.
Mariana, entrando na cozinha após o meu chamamento, ficou estupefacta ao olhar para aquele banquete. Foi a primeira vez desde que a vira que as rosáceas das suas faces vieram até á superfície, mostrando o seu ar tímido.
Quando viu que eu reparara nela, rapidamente se sentou e começou a servir-se de tudo o que lhe agradava.
Deixei-a comer até parar. Quando isso aconteceu, comecei a minha conversa, pois, o que se estava a passar era tudo menos normal.
Demorei alguns minutos a descobrir as palavras correctas, aquelas que não soariam nem de uma forma muito interessada nem desinteressada demais.
Foi uma tarefa difícil, essa de escolher as palavras, daí não a ter conseguido executar da melhor maneira. Os meus pensamentos giravam na minha cabeça aparentado serem como um remoinho, daqueles que destroem tudo á sua volta.
Decididamente o meu forte não era pensar no que dizer nos momentos mais difíceis, mas sempre fui boa a dizer o que me vinha á alma, sem pensar, sem procurar se isso afectaria alguém, ou mesmo a mim própria. Raramente isso acontecia. Sempre fui bem sucedida em discursos de última hora, em momentos difíceis, momentos felizes. As palavras saem-me com a mesma facilidade com que respiro.
Naquele momento, pensar nas palavras não foi a melhor das ideias. Simplesmente decidi começar por algo simples, mas, Mariana, vendo a minha decisão e o meu ar pensativo, decidiu apressar-se e dizer:
- Eu sei o que deve estar a pensar…o porquê de eu estar naquele jardim, a chorar ofegantemente e de agora estar em sua casa sem fazer uma única pergunta, um único esclarecimento, certo?
A sua astúcia levou-me novamente a fazer comparações entre nós, mas, tentando não me dispersar muito no assunto, disse:
- Sim, é um pouco isso. Poderias tentar esclarecer-me por favor?
Mariana rapidamente respondeu:
- Ora bem, então o melhor é começar pelo princípio, mas por favor não me interrompa! – eu, acenando-lhe rapidamente e sem pronunciar qualquer palavra, disse-lhe, por gestos, para continuar, então ela rapidamente recomeçou – Há dois anos, fiquei órfã, os meus pais tiveram um acidente de carro num dia chuvoso, e não aguentaram aos graves ferimentos. Sou filha única, e não tinha família para além deles, portanto, estou num orfanato. Ontem, quando me viu no jardim, tinha fugido mais uma vez, mas, já faço isso com tanta frequência que ninguém me procura, somente esperam que eu apareça, um dia ou dois depois.
Eu, devia estar com uma aparência péssima naquele momento. Parecia que o coração me caíra aos pés, que o sangue parara de correr nas minhas veias, que a hematose pulmonar se tinha extinguido, que tudo no meu corpo para além do meu cérebro tinha deixado de funcionar, tornando-me assim um corpo semi-morto.
Mas, nada disse, e dessa forma, Mariana continuou:
- Provavelmente, a Teresa não sabe o que é passar por tudo isto, mas, quando se deixa de ter família, quando se deixa de ter casa, tudo se altera, parecendo que o mundo desaba sobre a nossa cabeça, que a nossa vida terminou naquele momento e que agora somos apenas mais uma alma morta que vagueia num corpo vivo mas sem vida.
Não consegui conter as lágrimas que agora desabrochavam nos meus olhos. Era impossível as semelhanças entre nós serem tantas, eram coisas a mais!
Quando a menina me viu a chorar, rápida e preocupadamente me perguntou o que se estava a passar, se eu queria que ela se fosse embora. Não aguentando o meu próprio silencio rapidamente disse:
- Não! Espera! Tenho muitas coisas para te dizer, muitas mesmo, espera só um minuto ate eu me recompor.
Mariana não disse nada, somente permaneceu sentada na cadeira, a meu lado. Eu, vendo o interessa misturado com a tristeza nas suas expressões, nos seus olhos, na sua face, comecei a falar:
- Um dia, também eu fui uma pessoa feliz como muitas outras crianças. Fazia o que todas fazem, e era amada pelos meus pais de uma forma incondicionalmente enorme. Um dia, bastante chuvoso,…- contei-lhe a mesma historia que vos contei a vós, e, quando lhe referi as coisas que entre nós eram parecidas, também Mariana ficou estranhamente calada e pensativa.
Passados alguns minutos de pensamento em conjunto, a menina falou:
- Realmente são muitas coisas em comum, apesar de más, são comuns.
Mais nada disse durante, no mínimo, dez minutos. Eu também não quis interferir naquele momento de tão bom silêncio.
Passados aparentemente, quinze minutos, já o silêncio tinha ultrapassado a sua parte boa, tornando-se agora triste e constrangedor.
Mariana, sem ser necessário pedir-lhe, arranjou-se e, mal eu repeti o ritual de todas as manhas, estávamos as duas preparadas para partir.
Não trocamos mais palavras até chegarmos novamente aquele local que nos reaviva as memórias.
De um salto, saímos do carro, e ficamos as duas a mirar aquele belo jardim, que por momentos, longos ou breves se tornava quase como a mãe que n tínhamos, que nos acolhia como ninguém o fazia até então.
Passados breves instantes de reflexão, ambas nos olhamos num misto de melancolia e solidão.
Visto que eu tinha de voltar para o hospital e Mariana tinha de voltar para o orfanato tivemos de por um fim naquele momento gratificante mas doloroso.
Eu, após dar um passo na sua direcção, não aguentei a pressão e abracei-a. Esta, permaneceu quieta, assemelhando-se a uma estátua. Quando a libertei dos meus braços, Mariana olhou-me com um pouco de admiração e felicidade. Perguntei-lhe qual era o orfanato onde ela estava, mas, esta somente me respondeu que eu teria notícias dela em breve. Não a questionei, pois, via no seu rosto, que o que dissera era verdade.
Mariana, sem dizer um adeus, virou-se e seguiu em frente, num passo de bailarina, dançante e leve.
Eu, também, não me preocupei em dizer-lhe algo, visto que sabia que aquilo não seria um adeus, mas um simples até já.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

se...-parte 3

Com muita coragem, aproximei-me, e esta, sem qualquer reacção, continuou o seu choro tristíssimo e abafado.
Somente lhe consegui dizer :
- Calma! Tudo correrá bem! – numa rapidez maior que a luz, esta olhou para mim e se agarrou ás minhas longas e finas pernas.
Toquei-lhe, de início apenas de leve, mas, vendo-a daquela maneira, rapidamente também eu me sentei no chão a seu lado, e assim permanecemos bastante tempo. Eu, encostada a uma árvore, e ela, ao meu colo.
Quando conseguiu parar de chorar, sem ter tempo para pensar, adormeceu nos meus braços.
Eu, quando reparei que o choro passara, olhei para o seu rosto, aí vi que ela sonhava, que não estava no mesmo mundo que eu, que estava feliz.
O seu rosto fino e elegante tentava aquecer-se junto ao meu corpo, os seus lábios rubros estavam agora a mostrar um belo sorriso, algo receoso, mas feliz.
Não tive coragem para deixar tal ser tão belo, e pelos vistos tão sofredor, naquele local, podendo-lhe acontecer algo. Peguei-lhe e levei-a para o meu carro. Este estava quente fofo. Quando a larguei para a pousar no banco traseiro esta agarrou-se rapidamente ao meu pescoço como que tendo receio de eu a deixar e disse:
- por favor mamã, não vás!!!- a sua expressão deixou de ser bela para se tornar horrorizada e medrosa.
Rapidamente tive a reacção de lhe dizer que eu ( mãe) estava com ela, que nunca a deixaria.
Após ouvir estas palavras, ela soltou-se e assim prosseguimos para minha casa.
Quando lá cheguei, esta ainda estava num sono profundo. Peguei-lhe novamente e assim a levei para o meu apartamento.
Abri a porta, a menina estremeceu com um simples som de uma fechadura. Deitei-a sob os lençóis frios da minha cama desfeita e tapei-a com a manta que já há muito me acompanhava.
Após faze-lo, olhei-a e novamente me vi nela.
Aquele momento já me tinha acontecido anteriormente, eu, depois de sair do jardim, tapada com a mesma manta que fora feita pela minha mãe quando eu ainda era apenas um bebé mas que desde sempre me acompanhou, aquecendo-me nas noites frias de Inverno. Agora, esta aquecia-a, aquela que eu encontrara no jardim, no mesmo sitio, a fazer a mesma coisa que eu fizera á muitos anos atrás, a aquecer-se com a mesma manta.
Um grande número de semelhanças, nas quais eu no momento reparei, mas sem dar uma grande importância.
Enquanto a menina dormia, eu decidi ir para a sala de estar ver um pouco de televisão.
Adormeci, não sei quando, mas o cansaço acumulado acompanhado de um remoinho de emoções existentes em mim num tão curto espaço de tempo deixaram-me exausta, levando-me a um sono contrariado, mas bastante necessário.
Quando acordei, já o calor que vinha do lado exterior das janelas desaparecera e a escuridão reinava naquele pequeno apartamento.
Mal abri os olhos, dei um salto e fui ao quarto, pé ante pé, ver se a menina ainda dormia. Sim, ainda estava num sono pesado, provavelmente repleto de sonhos cor de rosa com princesas e animais encantados.
Tantas saudades tinha eu desses sonhos, dessas noites descansadas, felizes, em que não tinha de me preocupar em recordar as memórias, pois nessa altura ainda não eram necessárias.
Vendo que a menina ainda se encontrava num sono feliz e descansado, voltei para o meu sofá e retomei o sono interrompido.

se... parte 2

Mal a menina deu pela minha presença afundou ainda mais a sua cara entre os joelhos e assim permaneceu durante um bom bocado.
Tudo aquilo estava a ser bastante estranho para mim.
Há alguns anos atrás, quando soube que estava órfã e sozinha no mundo, também eu corri para aquele jardim, também eu chorei junto aquele arbusto.
Só quando vi a menina ali é que as memórias daquele momento sobressaltaram no meu peito.
Era um dia chuvoso, eu estava em casa com uma vizinha, e tudo permanecia calmo e feliz até a senhora ir ao telefone que tocara e chegar ao pé de mim com as lágrimas nos olhos e uma expressão tensa, triste e quase horrorizada.
Rapidamente a minha astúcia me levou a desconfiar de que algo se tinha passado com os meus pais. Maria, a vizinha, reparando na rapidez dos meus pensamentos, sentou-me no seu colo frio e firme, mas com um toque doce, e as únicas palavras que conseguiu pronunciar foram que os meus pais tinham tido um acidente muito grave e que agora eram meus anjoso da guarda. Sem conseguir assimilar todas as curtas palavras que da boca dela tinham saído, saltei do seu colo e numa corrida saí de casa e fui para o local que eu mais gostava, o jardim.
Passados cinco minutos a correr por entre as casas que pareciam desabar ao meu lado, em que a chuva aparentava ser como agulhas ao tocar-me no corpo, em que o meu coração parecia querer rebentar a cada momento e a minha respiração de tal forma acelarada aparentava querer sufocar-me eu tive de parar. Encostada a uma arvore que se encontrava a meio do caminho para o jardim, local para onde eu queria ir, eu pensei sem conseguir pensar, eu vi sem conseguir ver, e tudo se tornou tão confuso, tão diferente, que, rapidamente retomei a corrida chegando ao jardim em menos de dois minutos.
Quando lá entrei parecia que tinha retomado a minha vida normal, a chuva tinha desaparecido, o sol brilhava no céu e um arco-íris decorava o azul simples.
Naquele momento, todas as memórias que tinham aquele jardim como fundo passaram á minha frente, como um filme, chegando a deixar-me um pouco tonta.
Terminei a visualização desse filme com um sorriso nos lábios, um sorriso igual aos que tinha sempre que ali ia, eu e os meus pais.
Rapidamente voltei á realidade, e aí, o sorriso desmoronou-se em lágrimas, e o sol tornou-se numa tempestade na minha cabeça.
Encostei-me a um arbusto e, sentada naquela terra húmida que em determinados locais formava poças de água, onde, em tempos, eu pisaria, salpicando todos os que me rodeavam, eu chorei, chorei, chorei, um tempo sem fim, parecendo terem passado dias e noites a fio.
Por trás da árvore ouvira o som de um respirar profundo e preocupado, quase petrificado ao ver-me, e aí, a minha única reacção foi esconder ainda mais o rosto, de forma a que ninguém me visse.
Ao ver esta menina, relembrei esse momento doloroso da minha vida, aquele que me tirara quase tudo o que de bom possuía.

domingo, 26 de julho de 2009

se... - parte 1

Era um dia normal, como todos os outros que me assombravam há já bastantes meses, e eu, permanecia impávida e serena, naquele jardim que dantes tinha sido de longas gargalhadas e brincadeiras, mas que agora somente servia como que um local pensativo, com um aspecto verdejante, aonde me distanciava do mundo cinzento que estava do lado de for, pronto para me penetrar nos ouvidos, me cegar a visão e me imobilizar os músculos mal me cruzasse com ele, naquele momento h.
Depois de um dia de trabalho intenso em que as cirurgias foram tantas que passado algum tempo os meus dedos já se moviam sem serem mandados, somente com o intuito de terminar aquela cirurgia e começar novamente outra, como se estivesse num ciclo vicioso, num local em que a única li existente é não parar de trabalhar, de cortar, analisar, ver, tirar, cozer.
É realmente um ciclo vicioso quando não existem coisas novas, casos diferentes, excitantes, que nos conseguem deixar acordados dias a fio, somente para o puderes visualizar, operar.
Passado esse dia de cirurgia intensa, tudo o que não queria era ir para aquele apartamento ao qual chamava lar, abandonado no meio de tantas casas iguais, sem qualquer cor ou vida.
A partir do momento em que saí daquele hospital repleto de pessoas, que passados meros segundos naquele local se tornavam, para mim, como peças de xadrez, mas, as quais eu não mexia, não tocava nem pensava em mexer, tornando-se, dessa forma, meras estátuas, de cores e texturas diferentes, mas sempre algo incomunicável, com as quais somente por uma questão de educação e de profissão me obrigam a dizer umas simples palavras, visto que numa cirurgia somente se fala com as mãos, nada mais.
Quando pouso o meu corpo cansado, frio e mole naqueles acentos finos de pele bege, sinto-me em casa, num dos pequenos locais do meu pequeno mundo, aquele que por vezes me torna num mero robô entre tantos mais que por lá existem.
Vejo-me no retrovisor, quando os meus olhos atingem a imagem daquela pessoa cansada, fria, sinto-me de uma forma péssima.
Os meus olhos, secas até então, tornam-se húmidos, salgados, as lágrimas que neles crescem, se desenvolvem, embaciam-me o olhar, vendo algo assemelhado a um nevoeiro espesso, baixo, que se torna cada vez mais implacável a cada momento que passa.
Rapidamente, saiu daquele local, deslocando-me para um sitio sem sentido definido.
Escassos momentos passados, olhei com uma certa indecisão para o local que realmente seguia, e vi-me a estacionar naquele jardim, aquele que me faz suspirar e sentir feliz, nem que seja por escassos momentos.
Saí do carro com uma agilidade que nem eu própria sabia possuir. Rapidamente, trespassei a linha de grandes plátanos e entrei no coração do meu mundo.
O cheiro a erva acabada de cortar, as flores de mil cores e feitios, os bancos de madeira áspera com a tinta branca a descascar devido a tanta chuva, sol, e vento pelos quais já passaram. Ali, tudo permanecia igual, como há vinte anos atrás.
Naquele jardim, eu sentia-me novamente com cinco anos, a menina com as tranças compridas cor de chocolate de leite, a pele braça como a neve, os olhos verdes que se assemelhavam a topázios. Os vestidinhos coloridos e simples que por muitos e muitos anos suportaram os meus maus-tratos, as lavagens sem fim, os rasgões cozidos e recozidos vezes sem conta.
Era assim que me sentia naquele preciso momento, um menina, sem preocupações, sem quaisquer problemas, somente com uma vida feliz.
Relembrava agora as memórias que me permitiam o curto mas intenso momento de felicidade, sentada na relva molhada, rodeada de formiga e outras espécies de bichinhos um tanto ou quanto invisíveis.
Quando ia lá com os meus pais, aqueles que agora desapareceram, em que me deitava a rebolar no chão juntamente com os meninos que lá estavam, eu ficava contente, como se me tivessem dado o maior presente de todos.
A sensação de liberdade rodeada de carinho, paz e amor deixava-me tranquila, satisfeita com a minha curta mas intensa vida.
A partir do momento em que os meus pais desapareceram da minha vida eu fiquei sozinha. Aquele injusto acidente em que a única culpada foi a chuva que tornava as estradas em rios e as cidades em oceanos levara-os no dia em que eu completara os meus dez anos.
Desde aí as minhas memórias felizes escassearam, guardando e relembrando somente aquelas já vistas e revistas, pensadas e relembradas vezes sem conta.
No emaranhado dos meus pensamentos, algo estranho e diferente sobressalta o um olhar, conduzindo-o ao ponto central do jardim.
Raramente ligo a barulhos, a habituação já e de tal forma grande que não sei o porque de este me ter despertado algum interesse.
Pus os ouvidos á escuta, e, só aí me apercebi de que aquele som abafado, quase inaudível, mas, predominantemente triste, saltava por entre as arvores, tocava os meus delicados ouvidos como se neles fizesse festas, pedindo para entrar, era um choro.
Por momentos pensei estar a sonhar, mas, rapidamente reparei que era tudo verdade, e assim, fui vasculhando por entre as árvores, tentando seguir aquele som.
Quando os meus olhos atingiram a fonte daquele choro desesperado e imaturo, as minhas forças perderam-se e o meu corpo atingiu o ponto estátua, sem conseguir transparecer qualquer pensamento de movimento.
Era uma criança, mais especificamente, uma menina.
Os seus caracóis loiros e brilhantes formavam cacho que lhe cobriam as costas. A pele pálida sem qualquer imperfeição aparentava um aspecto frágil. Os olhos numa cor que nunca antes tinha visto aparentavam um tom cinzento claro, do mais belo que já vira.

sexta-feira, 24 de julho de 2009


Desassossego

A Raquel é o sossego, Uma pessoa calma, calada, que transmite paz e sossego de uma forma alucinante.
A sua calmidão assemelha-se á calma de um anjo e fala e ri tão pouco que junto dela o sossego e a concentracção nasce sem nunca morrer.

Biblioteca sem Visão

Um dia, decidi ir á biblioteca. Um dos meus locais preferidos.
A forma da biblioteca? Não sei, mas também isso não tem grande inportância.
Já a conheço há muito tempo e a frequência com que a visito é também bastante grande.
Quando subo as escadas da entrada, aquelas escadas altas de um material duro e rogoso, sinto-me como se já tivesse ganho uma das muitas que travo durante o dia.
Mal passo a porta, aquele cheiro bastante seu característico inundame, afundando-se até ao ponto mais profundo do meu ser.
O odor dos livros velhos, os que já lá permanecem há anos e anos seguidos, misturado com o odos dos livros novos, os acabados de chegar, tendo alguns ainda um travo do cheiro do local onde foram fabricados.
Os meus pés, de tão habituados que já estão, levaram.me á sala com livros adequados para mim.
Este é o meu mundo naquela biblioteca tão grande.
As paredes rogosas, os sofás fofos e com uma textura lisa. As estantes que cobrem as paredes que estão cobertas de todo o tipo de livros. E, ao fundo, uma janela, que deixa o calor entrar naquela sala, por vezes fria, por vezes quente.
Passo lá horas entretida nos romances históricos, coédias, poesia e tudo o resto que lá existe.
Outras vezes, fico sentada, a olhar para os meus pensamentos, visto que são a única coisa que posso visualizar na minha cabeça.
Ser cega nunca significou parar de viver, mas sim viver uma vida diferente.