Quando, de manhã, senti a luz a entrar na sala, atravessando os filamentos das cortinas rosa claro senti algo muito quente na minha face, era algo quente e fofo, era um toque simples e carinhoso, como que o toque do cetim. Com pouca coragem para virar os meus espelhos para o mundo, abri-os, a aí vi a menina mais bela que já vira em toda a minha vida.
Já antes a achava bonita, mas, a sua beleza pareceu aumentar a olhos vistos durante o sono.
Ela olhava-me com aqueles olhos grandes, cor de cinza, rodeados por longas pestanas loiras. O seu cabelo loiro estava ainda mais brilhante e parecia não ter um que fosse fora do sítio, nem mesmo devido ao sono. A pele continuava pálida e frágil mas sempre bela e quase intocável.
Esta, vendo a minha admiração por ela, apressou-se logo a dizer:
- Bom dia! Eu sou a Mariana, penso que ainda não tivemos uma única oportunidade para nos apresentarmos. Peço desculpa pelo incómodo. Julgo eu que me quer devolver ao jardim novamente, certo? – a sua expressão dura e triste, parecia sussurrar ao meu ouvido, dizendo – por favor, não me leves novamente para aquele local, não agora, fica comigo, dá-me carinho, por favor! .
Conseguindo ler aquilo na sua expressão, nos seus olhos, nas entre linhas das suas palavras, tudo o que eu consegui foi um silêncio; nada mais que isso.
Mariana, vendo-me de tal forma calada e pensativa, apressou-se a dizer que não era necessário preocupar-me com ela, somente a teria de levar para o local de onde a tirara na tarde do dia anterior.
A sua expressão não parecia ser de alguém de dez anos, mas sim de alguém com a minha idade, apesar de que alguns nem aos cem a conseguem ter. A independência existente nas suas palavras, demonstrava que tudo o que ela dizia significava o contrário do que ela queria e necessitava.
Rapidamente, tentei quebrar o silêncio que impusera poucos segundos antes:
- Bom dia Mariana! Eu sou a Teresa. E que tal se tomássemos o pequeno-almoço juntas?
Mariana rapidamente disse, já com uma expressão mais pacífica no rosto:
- Concerteza! É necessário ajudar em alguma coisa? Realmente, a fome já aperta um pouco.
De um salto, saí da cozinha e pus-me a preparar tudo o que achava ser necessário para um bom pequeno-almoço.
No final, a mesa estava repleta de comida, desde torradas, compotas, leite, café, cereais, todo e mais algum tipo de fruta, etc.
Mariana, entrando na cozinha após o meu chamamento, ficou estupefacta ao olhar para aquele banquete. Foi a primeira vez desde que a vira que as rosáceas das suas faces vieram até á superfície, mostrando o seu ar tímido.
Quando viu que eu reparara nela, rapidamente se sentou e começou a servir-se de tudo o que lhe agradava.
Deixei-a comer até parar. Quando isso aconteceu, comecei a minha conversa, pois, o que se estava a passar era tudo menos normal.
Demorei alguns minutos a descobrir as palavras correctas, aquelas que não soariam nem de uma forma muito interessada nem desinteressada demais.
Foi uma tarefa difícil, essa de escolher as palavras, daí não a ter conseguido executar da melhor maneira. Os meus pensamentos giravam na minha cabeça aparentado serem como um remoinho, daqueles que destroem tudo á sua volta.
Decididamente o meu forte não era pensar no que dizer nos momentos mais difíceis, mas sempre fui boa a dizer o que me vinha á alma, sem pensar, sem procurar se isso afectaria alguém, ou mesmo a mim própria. Raramente isso acontecia. Sempre fui bem sucedida em discursos de última hora, em momentos difíceis, momentos felizes. As palavras saem-me com a mesma facilidade com que respiro.
Naquele momento, pensar nas palavras não foi a melhor das ideias. Simplesmente decidi começar por algo simples, mas, Mariana, vendo a minha decisão e o meu ar pensativo, decidiu apressar-se e dizer:
- Eu sei o que deve estar a pensar…o porquê de eu estar naquele jardim, a chorar ofegantemente e de agora estar em sua casa sem fazer uma única pergunta, um único esclarecimento, certo?
A sua astúcia levou-me novamente a fazer comparações entre nós, mas, tentando não me dispersar muito no assunto, disse:
- Sim, é um pouco isso. Poderias tentar esclarecer-me por favor?
Mariana rapidamente respondeu:
- Ora bem, então o melhor é começar pelo princípio, mas por favor não me interrompa! – eu, acenando-lhe rapidamente e sem pronunciar qualquer palavra, disse-lhe, por gestos, para continuar, então ela rapidamente recomeçou – Há dois anos, fiquei órfã, os meus pais tiveram um acidente de carro num dia chuvoso, e não aguentaram aos graves ferimentos. Sou filha única, e não tinha família para além deles, portanto, estou num orfanato. Ontem, quando me viu no jardim, tinha fugido mais uma vez, mas, já faço isso com tanta frequência que ninguém me procura, somente esperam que eu apareça, um dia ou dois depois.
Eu, devia estar com uma aparência péssima naquele momento. Parecia que o coração me caíra aos pés, que o sangue parara de correr nas minhas veias, que a hematose pulmonar se tinha extinguido, que tudo no meu corpo para além do meu cérebro tinha deixado de funcionar, tornando-me assim um corpo semi-morto.
Mas, nada disse, e dessa forma, Mariana continuou:
- Provavelmente, a Teresa não sabe o que é passar por tudo isto, mas, quando se deixa de ter família, quando se deixa de ter casa, tudo se altera, parecendo que o mundo desaba sobre a nossa cabeça, que a nossa vida terminou naquele momento e que agora somos apenas mais uma alma morta que vagueia num corpo vivo mas sem vida.
Não consegui conter as lágrimas que agora desabrochavam nos meus olhos. Era impossível as semelhanças entre nós serem tantas, eram coisas a mais!
Quando a menina me viu a chorar, rápida e preocupadamente me perguntou o que se estava a passar, se eu queria que ela se fosse embora. Não aguentando o meu próprio silencio rapidamente disse:
- Não! Espera! Tenho muitas coisas para te dizer, muitas mesmo, espera só um minuto ate eu me recompor.
Mariana não disse nada, somente permaneceu sentada na cadeira, a meu lado. Eu, vendo o interessa misturado com a tristeza nas suas expressões, nos seus olhos, na sua face, comecei a falar:
- Um dia, também eu fui uma pessoa feliz como muitas outras crianças. Fazia o que todas fazem, e era amada pelos meus pais de uma forma incondicionalmente enorme. Um dia, bastante chuvoso,…- contei-lhe a mesma historia que vos contei a vós, e, quando lhe referi as coisas que entre nós eram parecidas, também Mariana ficou estranhamente calada e pensativa.
Passados alguns minutos de pensamento em conjunto, a menina falou:
- Realmente são muitas coisas em comum, apesar de más, são comuns.
Mais nada disse durante, no mínimo, dez minutos. Eu também não quis interferir naquele momento de tão bom silêncio.
Passados aparentemente, quinze minutos, já o silêncio tinha ultrapassado a sua parte boa, tornando-se agora triste e constrangedor.
Mariana, sem ser necessário pedir-lhe, arranjou-se e, mal eu repeti o ritual de todas as manhas, estávamos as duas preparadas para partir.
Não trocamos mais palavras até chegarmos novamente aquele local que nos reaviva as memórias.
De um salto, saímos do carro, e ficamos as duas a mirar aquele belo jardim, que por momentos, longos ou breves se tornava quase como a mãe que n tínhamos, que nos acolhia como ninguém o fazia até então.
Passados breves instantes de reflexão, ambas nos olhamos num misto de melancolia e solidão.
Visto que eu tinha de voltar para o hospital e Mariana tinha de voltar para o orfanato tivemos de por um fim naquele momento gratificante mas doloroso.
Eu, após dar um passo na sua direcção, não aguentei a pressão e abracei-a. Esta, permaneceu quieta, assemelhando-se a uma estátua. Quando a libertei dos meus braços, Mariana olhou-me com um pouco de admiração e felicidade. Perguntei-lhe qual era o orfanato onde ela estava, mas, esta somente me respondeu que eu teria notícias dela em breve. Não a questionei, pois, via no seu rosto, que o que dissera era verdade.
Mariana, sem dizer um adeus, virou-se e seguiu em frente, num passo de bailarina, dançante e leve.
Eu, também, não me preocupei em dizer-lhe algo, visto que sabia que aquilo não seria um adeus, mas um simples até já.