Acordo sobressaltada após um pesadelo que parecia ser interminavelmente real e doloroso.
Foste tu outra vez, atormentas-me dia e noite, sem um segundo para descansar, um mero segundo para me deixares respirar fugazmente e pensar por mim própria o porque da tua existência em mim.
Olho o relógio, seis da manhã, somente cinco horas passaram desde que tentei livrar-me de ti, e mesmo assim, é impossível.
Estragas os meus sonhos encantados em que tudo em tempos foi cor-de-rosa, e agora é negro, as flores murcharam, as fontes secaram, e as tuas imagens reavivaram-se na minha mente, no meu coração.
Ainda hoje relembro o dia em que te conheci, de mochilinha às costas e mini-saia xadrez.
Apenas éramos duas crianças, pequenos botões de rosa em tão grande roseiral, mas mesmo assim, já na tua expressão consegui ver que dali sairia uma grande amizade.
Os teus lábios rosa pálido apresentando um traço fino e delicado, aqueles grandes e penetrantes olhos castanhos tão bem desenhados num rosto redondinho e tipicamente infantil transpareciam tudo o que de bom há na vida, alegria, timidez e vivacidade, apesar da falta do sorriso que mais tarde vim a descobrir.
Alguns dias depois consegui ouvir a tua voz até aí apagada no meio de uma tão grande confusão de sons e movimentos.
“Olá” foi a primeira coisa que me disseste, e logo aí eu fiquei encantada com tão doce voz.
A partir daí nada mais nos interessou. Passamos a viver como que em cápsulas, em que o céu era sempre azul refrescante, o sol brilhava dias a fio e nada mais que tons alegres prevaleciam nesse mundinho tão á parte.
Todas as pessoas eram belas e amarelas como as flores que em nós existiam, e em nada havia mal, ódio, tristeza ou solidão.
Um dia, tu decidis-te abrir o portãozinho de ouro e aí, em contacto com o exterior, o nosso pequeno mundo deixou de existir. As flores murcharam, as nuvens chegaram carregadas de ódio e arrependimento e o sol partiu, sem nunca mais voltar. O ar tornou-se ácido corroendo todas as nossas boas memórias de que aquilo, fora um dia um mundo feliz.
Tu sais-te, não aguentas-te, talvez a idade que se aproximava não nos deixasse outra hipótese que não sair daquela incubadora da felicidade que nos alimentava as esperanças de um dia o mundo inteiro ser como o nosso, um local puro e belo.
Um passo bastou para tudo desabar sobre ti, sobre nós.
A estrada encontrava-se vazia, um longo caminho negro apoiava o nosso peso enquanto o ar abafado nos fazia ficar pálidas e enjoadas.
Eu, ainda aos saltinhos, como em criança, atravessei essa estrada rapidamente. Mas tu não, tu já não eras a menina que andava sempre aos saltinhos de um lado para o outro, e por isso, a tua travessia foi mais lenta, penosa.
Sabes, a criança que eu era salvou-me daquele trágico autocarro, mas a tua não, essa desaparecera mal abris-te a porta e a deixas-te partir, fugir como um pássaro que foge das mãos mal elas se abrem e voa pelo céu azul, livre.
Não aguentas-te, e dessa forma, o resto do que ainda existia em ti desapareceu após o choque entre vós, o autocarro e tu.
Ali ficas-te, fora do teu mundo, fora do teu corpo.
A tua criança teria te salvo, mas tu não quiseste, preferis-te ser a adultazinha de palmo e meio com um sonho despedaçado e um mundo perdido.
Todos os dias te imagino a saltitares sobre os traços da passadeira, ao meu lado, e aí, o autocarro passa por trás de nós, apenas nos tocando uma brisa gélida e cortante, nada mais.
Vejo-te a todos os segundos, as mesmas imagens ainda ma atormentam noite e dia. A minha vida ainda depende da tua. Agora, duas crianças vivem em mim, e o nosso mundo foi reconstruído, o sol voltou e ilumina-me como fez em tempos também contigo.
Os teus passos lentos fizeram voltar a tua alegria, mas para outro corpo, o daquela que a todos os momentos te acompanhou.
Habitamos as duas um só corpo, uma só vida, um só mundo, porque quando também eu desaparecer, podemos voltar a ser dois seres distintos mas únicos que poderão usufruir de um mundo em conjunto.
"As «histórias» dos meus livros são desde há muito dadas por manchas como uma pintura."
domingo, 27 de setembro de 2009
terça-feira, 8 de setembro de 2009
puzzle perdido
Olho as ranhuras de um tecto em tempos branco, agora bege.
Sinto o meu corpo frágil dividir-se em meros fragmentos de células, e estes voam por todo o quarto
Levanto a alma desfeita, perdida e magoada e dirijo-a até ao espelho. Somente vejo um corpo estranho, um puzzle incompleto, um ser infeliz ao qual faltam as lembranças alegres e coloridas, as peças amarelas e vermelhas, aquelas que completam o puzzle há muito incompleto.
O meu corpo cai redondo no chão ao ver aquela visão á muito sabida, mas um pouco desconhecida.
Sinto o peito arder, os olhos chorar, e as peças cinzentas do puzzle a desfazerem-se, formando uma pequena camada de cinzas no chão pálido e gasto de madeira.
Penso, e repenso os infinitos motivos de tão grande degradação.
Tentei esquecer aquele olhar firme, doce, os tais olhos cor de mel, doces e por vezes sem qualquer sinal de vida. Tentei esquecer as faces rosadas depois das corridas matinais, os lábios rubros e belos.
A estatura mediana, a pele com um travo a menta, os lábios com sabor a chocolate, ainda me atormentam as noites e os dias, até me levarem á loucura.
O fogo ainda arde no meu coração, a paixão ainda paira no ar que respiro.
Olho em meu redor, ainda vejo o seu andar descansado e lento á minha frente, ainda sinto o seu corpo tocar o meu.
O saxofone permanece encostado ao sofá, consigo ouvir a sua bela melodia na minha mente.
As roupas continuam espalhadas pela cama ainda quente, e eu penso, ele ainda cá está.
Vagueia pela minha mente não me deixando esquece-lo.
Só há uma verdade, já não me conheço, já não o conheço.
Ele partiu de mala na mão e buraco no peito, e nunca mais voltou. Somente lhe disse “ nunca me esqueças” e ele nada respondeu.
Ainda hoje o vejo a descer as escadas da entrada, o seu ar triste e desconcertado de alguém que ainda ama, mas sem fogo, somente com cinzas.
Nada mais há para dizer, para além de tudo isto.
Desisto, a dor não passa, a esperança não cessa.
Sinto o puzzle refazer-se, as peças juntam-se, unem-se. A imagem não é definida, somente uma doce mistura de cores, mas já é um bom começo.
Ainda espero vê-lo novamente, mas já não endoideço por isso.
Sinto o meu corpo frágil dividir-se em meros fragmentos de células, e estes voam por todo o quarto
Levanto a alma desfeita, perdida e magoada e dirijo-a até ao espelho. Somente vejo um corpo estranho, um puzzle incompleto, um ser infeliz ao qual faltam as lembranças alegres e coloridas, as peças amarelas e vermelhas, aquelas que completam o puzzle há muito incompleto.
O meu corpo cai redondo no chão ao ver aquela visão á muito sabida, mas um pouco desconhecida.
Sinto o peito arder, os olhos chorar, e as peças cinzentas do puzzle a desfazerem-se, formando uma pequena camada de cinzas no chão pálido e gasto de madeira.
Penso, e repenso os infinitos motivos de tão grande degradação.
Tentei esquecer aquele olhar firme, doce, os tais olhos cor de mel, doces e por vezes sem qualquer sinal de vida. Tentei esquecer as faces rosadas depois das corridas matinais, os lábios rubros e belos.
A estatura mediana, a pele com um travo a menta, os lábios com sabor a chocolate, ainda me atormentam as noites e os dias, até me levarem á loucura.
O fogo ainda arde no meu coração, a paixão ainda paira no ar que respiro.
Olho em meu redor, ainda vejo o seu andar descansado e lento á minha frente, ainda sinto o seu corpo tocar o meu.
O saxofone permanece encostado ao sofá, consigo ouvir a sua bela melodia na minha mente.
As roupas continuam espalhadas pela cama ainda quente, e eu penso, ele ainda cá está.
Vagueia pela minha mente não me deixando esquece-lo.
Só há uma verdade, já não me conheço, já não o conheço.
Ele partiu de mala na mão e buraco no peito, e nunca mais voltou. Somente lhe disse “ nunca me esqueças” e ele nada respondeu.
Ainda hoje o vejo a descer as escadas da entrada, o seu ar triste e desconcertado de alguém que ainda ama, mas sem fogo, somente com cinzas.
Nada mais há para dizer, para além de tudo isto.
Desisto, a dor não passa, a esperança não cessa.
Sinto o puzzle refazer-se, as peças juntam-se, unem-se. A imagem não é definida, somente uma doce mistura de cores, mas já é um bom começo.
Ainda espero vê-lo novamente, mas já não endoideço por isso.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
guilt
Sou a culpada.
Sou a culpada dos meus erros, dos meus receios, da minha insegurança, e mesmo assim sobrevivo e vivo para o contar.
Sinto um sentimento há muito conhecido percorrer as minhas veias finas e delicadas, que se rompem cada vez que ele passa parecendo um furacão levando tudo á sua frente.
Sinto o corpo perder-se na escuridão do meu ser, naquele culpado inato que corrói a sua própria alma.
Choro, porquê? Porque vejo toda a minha vida dispersar-se em fragmentos, que se perdem neste mundo tão grande.
Nada mais que uma prisioneira de uma vida triste nada menos que a culpada dessa vida.
A morte, que passo tão curto para uns e para outros tão grande. Sim, divago, porque nada melhor do que não dar certezas do que se diz quando de nada se tem certeza.
O choro abafa o espaço vago da alma alegre à muito perdida, e dessa forma, também eu me perco, também eu preciso de um mapa da vida, mas nunca o encontro.
Porque quem perde a alegria de viver, raramente a encontra, porque quem aceita a tristeza de ânimo leve raramente a consegue descolar do ser.
Desisto, a vida nunca me compreenderá, nem eu a ela. Preciso de muita coisa, mas a principal é livrar-me deste aperto no peito, deste nó na garganta que me consomem todos os dias e noites a fio, que me matam lentamente sem eu dar por isso, ate chegar ao estado final, aquele ao qual ninguém foge.
Quero deixar tudo isto ir, quero sentir-me viva, quero ganhar a cor encarnada nos lábios alegremente desenhados que há muito perderam o sorriso brilhante. quero o palpitar vivaço do coração, quero os pensamentos apaixonados que fazem a minha visão tornar-se rosa, quero viver e ser feliz.
Mas nada do que quero vem, retoma o seu lugar neste corpo morto, até que eu deixe partir a morte de dentro de mim e deixe retomar a vida no se lugar.
Sou a culpada dos meus erros, dos meus receios, da minha insegurança, e mesmo assim sobrevivo e vivo para o contar.
Sinto um sentimento há muito conhecido percorrer as minhas veias finas e delicadas, que se rompem cada vez que ele passa parecendo um furacão levando tudo á sua frente.
Sinto o corpo perder-se na escuridão do meu ser, naquele culpado inato que corrói a sua própria alma.
Choro, porquê? Porque vejo toda a minha vida dispersar-se em fragmentos, que se perdem neste mundo tão grande.
Nada mais que uma prisioneira de uma vida triste nada menos que a culpada dessa vida.
A morte, que passo tão curto para uns e para outros tão grande. Sim, divago, porque nada melhor do que não dar certezas do que se diz quando de nada se tem certeza.
O choro abafa o espaço vago da alma alegre à muito perdida, e dessa forma, também eu me perco, também eu preciso de um mapa da vida, mas nunca o encontro.
Porque quem perde a alegria de viver, raramente a encontra, porque quem aceita a tristeza de ânimo leve raramente a consegue descolar do ser.
Desisto, a vida nunca me compreenderá, nem eu a ela. Preciso de muita coisa, mas a principal é livrar-me deste aperto no peito, deste nó na garganta que me consomem todos os dias e noites a fio, que me matam lentamente sem eu dar por isso, ate chegar ao estado final, aquele ao qual ninguém foge.
Quero deixar tudo isto ir, quero sentir-me viva, quero ganhar a cor encarnada nos lábios alegremente desenhados que há muito perderam o sorriso brilhante. quero o palpitar vivaço do coração, quero os pensamentos apaixonados que fazem a minha visão tornar-se rosa, quero viver e ser feliz.
Mas nada do que quero vem, retoma o seu lugar neste corpo morto, até que eu deixe partir a morte de dentro de mim e deixe retomar a vida no se lugar.
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