segunda-feira, 10 de outubro de 2011

runaway train never comes back

Os comboios não esperam. Partem entre despedidas e lágrimas mordidas que sangram quando o mundo se transforma numa pintura abstracta.
As crianças deixam cair as bonecas de trapos para as linhas da morte e os pais agarram-nas antes de a brisa vir destroçar os sonhos de brincadeiras que nunca irão acontecer.
Enquanto ninguém olha, são deixados para trás os olhares descarnados de vida que se estilhaça nas paredes por entre mãos carregadas de raiva e ódio.
E fogem. Fogem todos. Porque os passos são largos e cada dia é um par de minutos que tal como as palavras e os sonhos se gastam.
Os cabelos loiros vão pousados nos ombros de um qualquer banco ao invés de voarem através da janela, e enquanto o mundo gira para o lado contrário, eu acaricio o livro que me acompanha. Não há mais ninguém. O comboio morre dentro de mim enquanto uma nova história surge com a rapidez de uma reacção entre ácido e água.
Perco-me nas tuas palavras, nos teus dedos, na angústia que te consome e ateia o fogo da tua voz.
Caminho sozinha por entre ruas de pedra. Ruas que cinzentas experimentam a frieza da noite.
Fugi outra vez, e a cada passo me arrependo. Não de ter fugido, mas sim de não ter tomado essa atitude mais cedo, antes mesmo de me teres partido os sonhos e escurecido os pensamentos. Porque as palavras ditas por ti ficaram guardadas e esquecidas, mas quando relembradas, queimaram-me a alma e julguei as trevas meu lar.

Num palco negro nascem luzes


Num palco negro nascem luzes. Diamantes falsos dos tutus das bailarinas que em passo apressado brilham ao longe como olhos curiosos em noites escuras. A vela do espectáculo acende-se e apaga-se enquanto o vento sopra devagarinho.
Por trás das cortinas o mundo nasce todas as noites. Roupas, cabelos, sapatilhas de ballet perdidas.
Tic tac, o tempo não espera. O ranger das cadeiras acelera corações e o murmurar do público faz soar sinetas.
O espectáculo começa. Passos de valsa apressam a respiração. Sente-se um aperto e o chão move-se mais rápido que a bailarina. Incandescente está a lua e o sorriso cresce.
Notas de música não param. Caminham, apressam o andar e acabam correndo sem fôlego.
Por trás do palco as bailarinas esperam pelo seu momento. Roem unhas e riem baixinho. Porque elas são quem são quando ninguém está a ver. Porque as mãos transpiram e o batôn se esborrata quando está no momento de entrar. Porque o passo atrás quer ser maior do que o passo à frente.
Cantam canções de embalar quando ninguém ouve e dançam sozinhas numa sala vazia. Arrependem-se e querem voltar atrás. Estão sozinhas. Querem chorar mas têm medo de estragar a maquilhagem que mais parece um quadro. Sentadas no chão as bailarinas sabem que vai chegar o momento de tocar com a ponta da sapatilha no palco e fazer magia.
Respiram fundo e lembram-se dos sorrisos e das histórias de encantar. O momento é delas.
Com o mundo a seus pés, a bailarina, numa pirouette que acaba em plié põe fim a um sonho de uma noite.