quarta-feira, 29 de julho de 2009

se... parte 2

Mal a menina deu pela minha presença afundou ainda mais a sua cara entre os joelhos e assim permaneceu durante um bom bocado.
Tudo aquilo estava a ser bastante estranho para mim.
Há alguns anos atrás, quando soube que estava órfã e sozinha no mundo, também eu corri para aquele jardim, também eu chorei junto aquele arbusto.
Só quando vi a menina ali é que as memórias daquele momento sobressaltaram no meu peito.
Era um dia chuvoso, eu estava em casa com uma vizinha, e tudo permanecia calmo e feliz até a senhora ir ao telefone que tocara e chegar ao pé de mim com as lágrimas nos olhos e uma expressão tensa, triste e quase horrorizada.
Rapidamente a minha astúcia me levou a desconfiar de que algo se tinha passado com os meus pais. Maria, a vizinha, reparando na rapidez dos meus pensamentos, sentou-me no seu colo frio e firme, mas com um toque doce, e as únicas palavras que conseguiu pronunciar foram que os meus pais tinham tido um acidente muito grave e que agora eram meus anjoso da guarda. Sem conseguir assimilar todas as curtas palavras que da boca dela tinham saído, saltei do seu colo e numa corrida saí de casa e fui para o local que eu mais gostava, o jardim.
Passados cinco minutos a correr por entre as casas que pareciam desabar ao meu lado, em que a chuva aparentava ser como agulhas ao tocar-me no corpo, em que o meu coração parecia querer rebentar a cada momento e a minha respiração de tal forma acelarada aparentava querer sufocar-me eu tive de parar. Encostada a uma arvore que se encontrava a meio do caminho para o jardim, local para onde eu queria ir, eu pensei sem conseguir pensar, eu vi sem conseguir ver, e tudo se tornou tão confuso, tão diferente, que, rapidamente retomei a corrida chegando ao jardim em menos de dois minutos.
Quando lá entrei parecia que tinha retomado a minha vida normal, a chuva tinha desaparecido, o sol brilhava no céu e um arco-íris decorava o azul simples.
Naquele momento, todas as memórias que tinham aquele jardim como fundo passaram á minha frente, como um filme, chegando a deixar-me um pouco tonta.
Terminei a visualização desse filme com um sorriso nos lábios, um sorriso igual aos que tinha sempre que ali ia, eu e os meus pais.
Rapidamente voltei á realidade, e aí, o sorriso desmoronou-se em lágrimas, e o sol tornou-se numa tempestade na minha cabeça.
Encostei-me a um arbusto e, sentada naquela terra húmida que em determinados locais formava poças de água, onde, em tempos, eu pisaria, salpicando todos os que me rodeavam, eu chorei, chorei, chorei, um tempo sem fim, parecendo terem passado dias e noites a fio.
Por trás da árvore ouvira o som de um respirar profundo e preocupado, quase petrificado ao ver-me, e aí, a minha única reacção foi esconder ainda mais o rosto, de forma a que ninguém me visse.
Ao ver esta menina, relembrei esse momento doloroso da minha vida, aquele que me tirara quase tudo o que de bom possuía.

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