Sinto um sopro frio, gélido, que trespassa todo o meu ser, a minha alma, o meu corpo tentam tornar-se simples, insignificantes e robustos cubos de gelo, mas eu não o permito.
Já passei por muito, e já a derrotei vezes sem conta, mas também, já tantos se ficaram nos meus braços sem eu a sentir, sem eu a ver, sem eu cheirar aquele odor seco e fresco, doce e amargo, simples e intenso, aquele odor que me faz arder as narinas cada vez que o inalo.
Sim, é verdade, já nos encontramos bastantes vezes, mas nunca nenhuma dessas vezes o seu intuito era levar-me, mas agora é, agora ela quer tirar-me a vida.
Sinto o seu toque suave no meu braço arrepiado, o meu sangue tenta afastar-se dela parecendo concentrar-se num só ponto do meu corpo, um local que penso ela não conseguir chegar.
Agora sim, sinto-a, vejo-a, é tão diferente do que o que pensava. Uma cara humana e afável encontra-se no meio de um tecido preto aveludado que me acaricia as pernas. Toda ela é humana, sem foices nem nenhum objecto cortante, apenas é a morte.
Nada mais que isso, mas muito mais do que o que devia.
Sinto as palavras a esvaírem-se em letras soltas, sinto a vida tornar-se em simples memórias e as memórias em meras fotografias.
A morte, aquela pessoa de capa preta, cabelo cor de bronze, olhos pretos e pele branca como a pele acompanha cada um destes meus passos, como se fosse sempre assim, tornando-se monótono e entediante.
A minha vida terminou, depois de perder tantos nas minhas mãos, chegou a altura de ser eu a perder-me nas mãos de alguém. Não tenho pena disso, vivi o que tinha a viver e nada mais que isso, fiz o que devia ter feito, senti o que devia ter sentido, e não me arrependo disso, não me arrependo de nada, menos de poder dizer a todos que a morte é algo tão belo, tão simples, que nos faz querer dar-lhe a nossa alma, faz-nos querer ir sem qualquer medo ou receio.
Ninguém a vê, mas ela existe, não pede permissão para abrir a porta, mas entra sem qualquer dificuldade, sem ninguém para a debater.
Depois de ela aparecer, depois de saber o meu destino, somente lhe pedi uns minutos para escrever uma pequena carta, algo que eu queria escrever há muito, mas que não tivera ainda força para isso, não que seja algo complicado, mas sim algo estranho, parecia que existia uma barreira que me impedia de o escrever, de expressa-lo para uma folha.
Esta concedeu-me este último pedido, esperando ansiosamente para que eu terminasse.
Então, aqui vai:
Porto, 27 de Agosto de 2107
Querida Amiga,
Olho através da transparência suja da janela do meu quarto, o sol brilha radiante e contente, este não pressente a minha morte, mas eu sei que ela se avizinha, nós sabemos não é? Eu sei que sim.
Agora que penso, não é o sol que interessa, nem o sol, nem nada interessa, para além de nós, aquelas que antes eram desconhecidas, mas que agora fazem parte uma da outra.
A minha hora chegou, tudo o que sinto é insensível mas doloroso.
Só neste momento é que percebo o que a minha vida foi, e o que teria sido sem ti. Foste os meus pilares durante tantos anos, mas nunca enfraqueces-te, não houve uma só tempestade que te fragilizasse, não houve um raio de sol, por mais forte que fosse, que te conseguisse trespassar. Foste, e és, aquela que eu gostava de ser, mas que não conseguira.
Não me arrependo de o dizer, porque foi a verdade, durante dias a fio eu queria ser como tu, simpática, sociável, bondosa, mas não sei, não consegui. Daí nos dar-mos tão bem, daí nos completarmos uma á outra, formando um puzzle com as peças completas, mas sem uma imagem definida.
Quando, por algum motivo, havia uma zanga entre nós, eu sofria, sofria tanto, mas só quando me apercebi da força desse sofrimento é que reparei o quanto precisava de ti, o quanto tu me fazias falta, o quanto sabia bem ouvir as tuas palavras melodiosas a pairar nos meus ouvidos, o teu cheiro a perfume de franboesa a amaciar o meu nariz, o teu toque doce e por vezes atrapalhado em contacto com a minha pele.
Por muitos momentos senti falta de tudo isto e bastante mais. A pessoa que tu és não dá para descrever, és a pessoa indescritível que eu gostaria de ser mas não fui, és aquela que daria uma colecção inteira e mais algumas de livros da patrícia, mas que o seu significado seria incontávelmente maior.
Bem, está dito, agora sim, estou preparada para partir, não que não queira dizer mais um “adeus”, mais um “até logo”, mais um “és a melhor amiga de todo o sempre”, mas sei que estas pequenas palavras não conseguem acompanhar o teu verdadeiro eu que a maioria desconhece.
Portanto, fica somente um simples “até já”, pois eu estarei a ver-te, a guiar-te, a fazer aquilo que não tive tempo de fazer enquanto viva.
Joana
Agora sim, estou preparada para partir.
Dessa forma, a Morte soprou novamente, e rapidamente aquele ar gélido fez a minha alma saltar e a apanhou. Sim, era eu, já não era um corpo, mas somente uma alma que vai ao colo da Morte.
Passa-mos pela janela, senti um calafrio, se é que eu ainda sentia alguma coisa.
Assim seguimos o nosso fado, para mim desconhecido, para ela conhecido como a palma das suas mãos.
Senti-me segura, frágil mas forte, intocável, trespassável, invisível.
Ainda que morta, eu sentia, sentia todas as emoções, todas as memórias, somente tinha perdido o meu corpo, mas tudo permanecia igual, era a mesma pessoa, antes viva, agora morta.
Já passei por muito, e já a derrotei vezes sem conta, mas também, já tantos se ficaram nos meus braços sem eu a sentir, sem eu a ver, sem eu cheirar aquele odor seco e fresco, doce e amargo, simples e intenso, aquele odor que me faz arder as narinas cada vez que o inalo.
Sim, é verdade, já nos encontramos bastantes vezes, mas nunca nenhuma dessas vezes o seu intuito era levar-me, mas agora é, agora ela quer tirar-me a vida.
Sinto o seu toque suave no meu braço arrepiado, o meu sangue tenta afastar-se dela parecendo concentrar-se num só ponto do meu corpo, um local que penso ela não conseguir chegar.
Agora sim, sinto-a, vejo-a, é tão diferente do que o que pensava. Uma cara humana e afável encontra-se no meio de um tecido preto aveludado que me acaricia as pernas. Toda ela é humana, sem foices nem nenhum objecto cortante, apenas é a morte.
Nada mais que isso, mas muito mais do que o que devia.
Sinto as palavras a esvaírem-se em letras soltas, sinto a vida tornar-se em simples memórias e as memórias em meras fotografias.
A morte, aquela pessoa de capa preta, cabelo cor de bronze, olhos pretos e pele branca como a pele acompanha cada um destes meus passos, como se fosse sempre assim, tornando-se monótono e entediante.
A minha vida terminou, depois de perder tantos nas minhas mãos, chegou a altura de ser eu a perder-me nas mãos de alguém. Não tenho pena disso, vivi o que tinha a viver e nada mais que isso, fiz o que devia ter feito, senti o que devia ter sentido, e não me arrependo disso, não me arrependo de nada, menos de poder dizer a todos que a morte é algo tão belo, tão simples, que nos faz querer dar-lhe a nossa alma, faz-nos querer ir sem qualquer medo ou receio.
Ninguém a vê, mas ela existe, não pede permissão para abrir a porta, mas entra sem qualquer dificuldade, sem ninguém para a debater.
Depois de ela aparecer, depois de saber o meu destino, somente lhe pedi uns minutos para escrever uma pequena carta, algo que eu queria escrever há muito, mas que não tivera ainda força para isso, não que seja algo complicado, mas sim algo estranho, parecia que existia uma barreira que me impedia de o escrever, de expressa-lo para uma folha.
Esta concedeu-me este último pedido, esperando ansiosamente para que eu terminasse.
Então, aqui vai:
Porto, 27 de Agosto de 2107
Querida Amiga,
Olho através da transparência suja da janela do meu quarto, o sol brilha radiante e contente, este não pressente a minha morte, mas eu sei que ela se avizinha, nós sabemos não é? Eu sei que sim.
Agora que penso, não é o sol que interessa, nem o sol, nem nada interessa, para além de nós, aquelas que antes eram desconhecidas, mas que agora fazem parte uma da outra.
A minha hora chegou, tudo o que sinto é insensível mas doloroso.
Só neste momento é que percebo o que a minha vida foi, e o que teria sido sem ti. Foste os meus pilares durante tantos anos, mas nunca enfraqueces-te, não houve uma só tempestade que te fragilizasse, não houve um raio de sol, por mais forte que fosse, que te conseguisse trespassar. Foste, e és, aquela que eu gostava de ser, mas que não conseguira.
Não me arrependo de o dizer, porque foi a verdade, durante dias a fio eu queria ser como tu, simpática, sociável, bondosa, mas não sei, não consegui. Daí nos dar-mos tão bem, daí nos completarmos uma á outra, formando um puzzle com as peças completas, mas sem uma imagem definida.
Quando, por algum motivo, havia uma zanga entre nós, eu sofria, sofria tanto, mas só quando me apercebi da força desse sofrimento é que reparei o quanto precisava de ti, o quanto tu me fazias falta, o quanto sabia bem ouvir as tuas palavras melodiosas a pairar nos meus ouvidos, o teu cheiro a perfume de franboesa a amaciar o meu nariz, o teu toque doce e por vezes atrapalhado em contacto com a minha pele.
Por muitos momentos senti falta de tudo isto e bastante mais. A pessoa que tu és não dá para descrever, és a pessoa indescritível que eu gostaria de ser mas não fui, és aquela que daria uma colecção inteira e mais algumas de livros da patrícia, mas que o seu significado seria incontávelmente maior.
Bem, está dito, agora sim, estou preparada para partir, não que não queira dizer mais um “adeus”, mais um “até logo”, mais um “és a melhor amiga de todo o sempre”, mas sei que estas pequenas palavras não conseguem acompanhar o teu verdadeiro eu que a maioria desconhece.
Portanto, fica somente um simples “até já”, pois eu estarei a ver-te, a guiar-te, a fazer aquilo que não tive tempo de fazer enquanto viva.
Joana
Agora sim, estou preparada para partir.
Dessa forma, a Morte soprou novamente, e rapidamente aquele ar gélido fez a minha alma saltar e a apanhou. Sim, era eu, já não era um corpo, mas somente uma alma que vai ao colo da Morte.
Passa-mos pela janela, senti um calafrio, se é que eu ainda sentia alguma coisa.
Assim seguimos o nosso fado, para mim desconhecido, para ela conhecido como a palma das suas mãos.
Senti-me segura, frágil mas forte, intocável, trespassável, invisível.
Ainda que morta, eu sentia, sentia todas as emoções, todas as memórias, somente tinha perdido o meu corpo, mas tudo permanecia igual, era a mesma pessoa, antes viva, agora morta.
que texto escuro. bem... só no inicio, acho eu.
ResponderEliminarno fim dás uma sensação mto... leve - digamos assim.
gostei muito :) eheh
beijinhos, mitoitaaa
Muito bom,Rita.O começo me prendeu muitoooo, achei muito criativo.Vc escreve de forma simples,mas com uma força muito grande.Isso é belo!Abraços=)
ResponderEliminarDecidi deixar aqui a minha marca...
ResponderEliminarNap tive a possibilidade de ler tudo, pois as horas em q me encontro agra nao me possibilitam a tal... li muito superficialmente, e como ja sinto a minha vista cansada, deixo aqui a minha reflexao para mais tarde... Sim, admiro a tua escrita... estava mesmo aqui a perguntar-me se és mesmo tu que escreves... ja vi escritores bastantes bons, mas escrever tanto como escreveste aqui nunca vi... È algo que me surpreendeu mesmo..
Parabens, conseguiste espantar um critico em ascendencia...
È algo um bocadinho monotono para um pequeno blog... Puseste muita coisa, e confunde um bocado... mas cada um é livre dos seus devaneios... Como queiras... Escreves o que bem entenderes, mas espero que alguem especial te dê o devido valor...
Nao vou ser eu de certeza...
Depois leio com mais atenção...
E nao sejas tao melodramatica... acho que as pessoas ja estao cansadas disso...
Por vezes pensa-se que ja se passou demasiado na vida, mas o inesperado esta sempre aí á porta pronto a aparecer, e acredita que nao é coisa boa!
Continua...
Beijos*****
PS: Ha que aceitar criticas, desculpa :P
ya ta fixe, parabens ^^
ResponderEliminarEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarolá!
ResponderEliminareste coment é pr o Sés
sim, fui um pouco melodramatica, sim, escrevo bastante, mas nem sempre tenho de escrever textos sobre coisas felizes, temos de variar um pouco, sanao as coisas tornar-se-iao ainda mais monotonas e complicadas
tnh pena de n saber quem és, portanto, se quiseres dizer, estou á espera
obrigada pela critica bastante construtiva
n entendi a parte em que dizes q n serás tu a dar-me valor, pk?
bjk e obrigada, continua a deixar a tua opiniao
Drama is sooo dramatic. Cheer up girl.
ResponderEliminarBem, como já te disse concordo com Sés. Deixa o drama, bem, não completamente, mas enfim, tu percebes o que quero dizer. Ah e tal, não é preciso dizer que gostei certo?:p
oi!! A amiga deve ser mesmo especial para merecer uma carta quando ela esta as portas da morte, como sempre bastante semtimental e real...
ResponderEliminarP.S: framboesa? optimo
Gosto da maneira como escreves.Simplesmente isso cativa-me...
ResponderEliminarMas es demasiado triste... Gosto disso.
perguntaste-me se eu ficava triste quando lia, bem, as lágrimas podem-me ter vindo a os olhos, mas n sei se de tristeza, se espanto perante tanto talento, bem, é complicado dizer o porquê, mas deixemos isso de lado....
ResponderEliminaro texto está magnífico.....
parabéns
bjx